
(Padre Carlos)
O ano eleitoral mal começou e o Congresso Nacional já dá um recado cristalino à sociedade brasileira: quando o assunto é ajuste fiscal, transparência e justiça social, o sacrifício continua sendo sempre do contribuinte. Em meio a um discurso público que fala em Reforma Administrativa, combate a distorções e racionalização dos gastos públicos, parlamentares aprovaram projetos que ampliam despesas, reajustam salários e criam novas gratificações para servidores do Executivo e do Legislativo — numa clara demonstração de descompasso com a realidade do país.
É impossível não perceber a contradição. Enquanto o Brasil debate o fim da escala 6 por 1, em nome da saúde do trabalhador e da dignidade humana, a Câmara aprova um projeto que cria uma escala 3 por 1, garantindo uma folga a cada três dias trabalhados para determinados servidores. Trata-se de uma benesse sem explicação razoável, sobretudo quando o país enfrenta desafios fiscais severos, déficits persistentes e uma pressão crescente sobre a dívida pública.
O problema não está na valorização do servidor público em si, mas na lógica seletiva e pouco transparente com que esses benefícios são concedidos. Um dos projetos aprovados tem origem nebulosa: não se sabe exatamente quem o redigiu, quem o articulou nem quais estudos de impacto financeiro o sustentam. Em tempos de exigência por transparência no serviço público, esse tipo de prática soa como um escárnio institucional.
No Senado, o roteiro se repete. Avançam propostas que criam novas vantagens para um grupo que já ocupa o topo da pirâmide salarial do funcionalismo. Os dados são conhecidos: na escala do salário médio do setor público, o Judiciário lidera com folga, seguido pelo Legislativo, deixando o Executivo apenas na terceira posição. Ainda assim, os privilégios continuam sendo ampliados justamente para quem já recebe mais, aprofundando desigualdades internas e corroendo a legitimidade do Estado diante da população.
Essa política de autoproteção corporativa mina qualquer tentativa séria de Reforma Administrativa, pois preserva castas, perpetua supersalários e dificulta o controle social sobre os gastos públicos. O resultado é previsível: perda de confiança nas instituições, aumento da sensação de injustiça e descrédito da classe política — um combustível perigoso em tempos de radicalização e crise democrática.
O Congresso deve explicações claras ao contribuinte brasileiro. Deve dizer por que, em pleno ano eleitoral, escolhe ampliar gastos em vez de racionalizá-los. Deve explicar por que a palavra “reforma” serve apenas para discursos, mas não para orientar decisões concretas. E, sobretudo, deve responder se está disposto a legislar para o país real — aquele que trabalha duro, paga impostos elevados e recebe serviços públicos precários — ou apenas para proteger seus próprios interesses e os de uma elite estatal já privilegiada.
Sem transparência, sem equidade e sem compromisso com o interesse público, qualquer reforma será apenas retórica vazia. E o custo, como sempre, recairá sobre quem menos pode pagar.











