Política e Resenha

ARTIGO – Ciro Nogueira e o vazio de liderança na direita brasileira

 

 

Por Padre Carlos


O declínio de Ciro Nogueira

Ciro Nogueira, outrora operador central do poder em Brasília, vive hoje o ocaso de sua influência. O ex-ministro da Casa Civil, que já foi ponte entre o bolsonarismo e o Centrão, enfrenta um desgaste acelerado. O PP, seu partido, perdeu tração política e relevância estratégica. Sem a força de outrora, Nogueira tenta se manter no jogo com articulações discretas e aparições pontuais, mas o terreno já não é fértil.

A crise política que se abateu sobre o Centrão após o afastamento de Bolsonaro do cenário eleitoral — “Bolsonaro inelegível” tornou-se um mantra nos corredores do Congresso — deixou Nogueira sem seu principal ativo: a capacidade de mediar entre o poder e o pragmatismo. Hoje, o PP é mais coadjuvante do que protagonista. E Ciro, que já foi chamado de “primeiro-ministro informal”, parece cada vez mais um personagem lateral.


O vácuo pós-Bolsonaro

Com Bolsonaro inelegível, a direita brasileira mergulhou num vácuo de liderança. A disputa silenciosa entre Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado revela a fragmentação ideológica e a ausência de um projeto nacional. Tarcísio 2026 surge como aposta técnica, mas ainda sem base popular consolidada. Ratinho Júnior 2026 tenta capitalizar sobre o sucesso administrativo no Paraná, mas carece de projeção nacional. Já Ronaldo Caiado, embora experiente, carrega o peso de um perfil mais tradicional e menos mobilizador.

Não há consenso. Não há narrativa unificadora. A direita, que se alimentou do carisma de Bolsonaro, agora se vê órfã de um líder capaz de catalisar massas e pautar o debate público. O resultado é um campo político disperso, onde cada governador ensaia seu próprio caminho, sem coordenação, sem identidade comum.


O futuro da direita

O Centrão, núcleo duro da governabilidade brasileira, tenta sobreviver como eixo de poder. Mas sem uma liderança carismática, sua força é apenas aritmética. A lógica do balcão, das emendas e dos cargos, já não basta para sustentar um projeto político. A direita brasileira enfrenta um dilema: como se reinventar sem Bolsonaro, sem Ciro Nogueira, sem um nome que una técnica, carisma e base popular?

A crise política atual é mais profunda do que parece. É uma crise de sentido. O PP, o PL e outros partidos orbitam em torno de cálculos eleitorais, mas ignoram a necessidade de uma nova narrativa. O Brasil precisa de mais do que gestores. Precisa de líderes. E líderes não se fabricam em gabinetes.


A política brasileira vive um esvaziamento moral e ideológico. A direita, que já foi movida por valores, hoje se move por sobrevivência. O Centrão, sem alma, sem projeto, sem voz, é o retrato fiel de um sistema que perdeu o rumo. E enquanto isso, o país espera — não por salvadores, mas por estadistas.

 

ARTIGO – Ciro Nogueira e o vazio de liderança na direita brasileira

 

 

Por Padre Carlos


O declínio de Ciro Nogueira

Ciro Nogueira, outrora operador central do poder em Brasília, vive hoje o ocaso de sua influência. O ex-ministro da Casa Civil, que já foi ponte entre o bolsonarismo e o Centrão, enfrenta um desgaste acelerado. O PP, seu partido, perdeu tração política e relevância estratégica. Sem a força de outrora, Nogueira tenta se manter no jogo com articulações discretas e aparições pontuais, mas o terreno já não é fértil.

A crise política que se abateu sobre o Centrão após o afastamento de Bolsonaro do cenário eleitoral — “Bolsonaro inelegível” tornou-se um mantra nos corredores do Congresso — deixou Nogueira sem seu principal ativo: a capacidade de mediar entre o poder e o pragmatismo. Hoje, o PP é mais coadjuvante do que protagonista. E Ciro, que já foi chamado de “primeiro-ministro informal”, parece cada vez mais um personagem lateral.


O vácuo pós-Bolsonaro

Com Bolsonaro inelegível, a direita brasileira mergulhou num vácuo de liderança. A disputa silenciosa entre Tarcísio de Freitas, Ratinho Júnior e Ronaldo Caiado revela a fragmentação ideológica e a ausência de um projeto nacional. Tarcísio 2026 surge como aposta técnica, mas ainda sem base popular consolidada. Ratinho Júnior 2026 tenta capitalizar sobre o sucesso administrativo no Paraná, mas carece de projeção nacional. Já Ronaldo Caiado, embora experiente, carrega o peso de um perfil mais tradicional e menos mobilizador.

Não há consenso. Não há narrativa unificadora. A direita, que se alimentou do carisma de Bolsonaro, agora se vê órfã de um líder capaz de catalisar massas e pautar o debate público. O resultado é um campo político disperso, onde cada governador ensaia seu próprio caminho, sem coordenação, sem identidade comum.


O futuro da direita

O Centrão, núcleo duro da governabilidade brasileira, tenta sobreviver como eixo de poder. Mas sem uma liderança carismática, sua força é apenas aritmética. A lógica do balcão, das emendas e dos cargos, já não basta para sustentar um projeto político. A direita brasileira enfrenta um dilema: como se reinventar sem Bolsonaro, sem Ciro Nogueira, sem um nome que una técnica, carisma e base popular?

A crise política atual é mais profunda do que parece. É uma crise de sentido. O PP, o PL e outros partidos orbitam em torno de cálculos eleitorais, mas ignoram a necessidade de uma nova narrativa. O Brasil precisa de mais do que gestores. Precisa de líderes. E líderes não se fabricam em gabinetes.


A política brasileira vive um esvaziamento moral e ideológico. A direita, que já foi movida por valores, hoje se move por sobrevivência. O Centrão, sem alma, sem projeto, sem voz, é o retrato fiel de um sistema que perdeu o rumo. E enquanto isso, o país espera — não por salvadores, mas por estadistas.

 

ARTIGO – Casarões da Memória: O Patrimônio que Conta Quem Somos

 

 

(Padre Carlos)

Há cidades que crescem e se reinventam sem olhar para trás — e há aquelas que entendem que o futuro se constrói sobre os alicerces do passado. Vitória da Conquista, com sua história pulsante e seu papel cultural no coração da Bahia, parece caminhar pela segunda via. O recente trabalho do Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Município é mais do que um gesto técnico: é um ato de amor à memória coletiva.

A visita técnica realizada nesta segunda-feira (6) a imóveis emblemáticos — como o prédio da Prefeitura, o Solar dos Fonsecas, a Casa de Glauber Rocha e a Câmara de Vereadores — marca o início de um processo de tombamento que há muito se fazia necessário. Essas construções não são apenas paredes antigas; são testemunhos silenciosos de gerações que ajudaram a erguer a alma conquistense. Nelas, o tempo deixou suas marcas — não como ruína, mas como herança.

A prefeita Sheila Lemos, ao afirmar que “essas edificações trazem a verdadeira identidade de Vitória da Conquista”, toca o cerne da questão: o patrimônio é a expressão mais autêntica da nossa identidade. Preservar esses casarões é resgatar a dignidade de uma cidade que se recusa a apagar sua própria história em nome da pressa e da especulação imobiliária. Como lembrou a professora e jornalista Mary Weinstein, “preservar o patrimônio é preservar quem somos” — uma verdade que vai muito além das fachadas; é uma questão de pertencimento e de autoestima coletiva.

Não há cidade moderna sem memória, nem progresso sem raízes. O tombamento desses imóveis é uma resposta civilizada à destruição silenciosa que muitas vezes acompanha o avanço urbano. O arquiteto Rafael Celino foi preciso ao afirmar que o trabalho está alinhado ao Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), criando zonas de interesse histórico-cultural. Essa medida é essencial para que o crescimento da cidade não se transforme em esquecimento.

O assessor especial de Cultura, Alecxandre Magno, destacou que o processo começou ainda na gestão do ex-prefeito Herzem Gusmão e agora ganha forma concreta com a atual administração. Trata-se, portanto, de um esforço que ultrapassa governos e gestões — um pacto com o tempo, com a memória e com o próprio sentido de comunidade.

 

Preservar casarões, praças e edificações antigas é mais do que conservar tijolos e telhas: é manter viva a narrativa de quem fomos e de quem queremos continuar sendo. Quando uma cidade esquece suas origens, ela perde o rumo. Quando as lembra e as celebra, ela renasce com mais força, beleza e sentido.

Vitória da Conquista, ao investir na proteção do seu patrimônio, investe na alma de seu povo. E talvez seja essa a mais bela forma de projetar o futuro: com respeito, memória e gratidão.

ARTIGO – Casarões da Memória: O Patrimônio que Conta Quem Somos

 

 

(Padre Carlos)

Há cidades que crescem e se reinventam sem olhar para trás — e há aquelas que entendem que o futuro se constrói sobre os alicerces do passado. Vitória da Conquista, com sua história pulsante e seu papel cultural no coração da Bahia, parece caminhar pela segunda via. O recente trabalho do Núcleo de Preservação do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Município é mais do que um gesto técnico: é um ato de amor à memória coletiva.

A visita técnica realizada nesta segunda-feira (6) a imóveis emblemáticos — como o prédio da Prefeitura, o Solar dos Fonsecas, a Casa de Glauber Rocha e a Câmara de Vereadores — marca o início de um processo de tombamento que há muito se fazia necessário. Essas construções não são apenas paredes antigas; são testemunhos silenciosos de gerações que ajudaram a erguer a alma conquistense. Nelas, o tempo deixou suas marcas — não como ruína, mas como herança.

A prefeita Sheila Lemos, ao afirmar que “essas edificações trazem a verdadeira identidade de Vitória da Conquista”, toca o cerne da questão: o patrimônio é a expressão mais autêntica da nossa identidade. Preservar esses casarões é resgatar a dignidade de uma cidade que se recusa a apagar sua própria história em nome da pressa e da especulação imobiliária. Como lembrou a professora e jornalista Mary Weinstein, “preservar o patrimônio é preservar quem somos” — uma verdade que vai muito além das fachadas; é uma questão de pertencimento e de autoestima coletiva.

Não há cidade moderna sem memória, nem progresso sem raízes. O tombamento desses imóveis é uma resposta civilizada à destruição silenciosa que muitas vezes acompanha o avanço urbano. O arquiteto Rafael Celino foi preciso ao afirmar que o trabalho está alinhado ao Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), criando zonas de interesse histórico-cultural. Essa medida é essencial para que o crescimento da cidade não se transforme em esquecimento.

O assessor especial de Cultura, Alecxandre Magno, destacou que o processo começou ainda na gestão do ex-prefeito Herzem Gusmão e agora ganha forma concreta com a atual administração. Trata-se, portanto, de um esforço que ultrapassa governos e gestões — um pacto com o tempo, com a memória e com o próprio sentido de comunidade.

 

Preservar casarões, praças e edificações antigas é mais do que conservar tijolos e telhas: é manter viva a narrativa de quem fomos e de quem queremos continuar sendo. Quando uma cidade esquece suas origens, ela perde o rumo. Quando as lembra e as celebra, ela renasce com mais força, beleza e sentido.

Vitória da Conquista, ao investir na proteção do seu patrimônio, investe na alma de seu povo. E talvez seja essa a mais bela forma de projetar o futuro: com respeito, memória e gratidão.

Lula conversa com Donald Trump por telefone em meio a tarifaço sobre produtos brasileiros

 

 

 

Em política internacional, há momentos que mais parecem cenas de um filme improvável. A ligação de Lula para Donald Trump, ocorrida nesta segunda-feira (6), é uma dessas passagens em que o roteiro parece ultrapassar o limite do realismo diplomático. De um lado, um líder progressista latino-americano, defensor da multipolaridade e da regulação global; de outro, o símbolo máximo do populismo conservador e nacionalista norte-americano. E, no entanto, ali estavam os dois, trocando afagos e ensaiando o que pode ser uma reaproximação estratégica entre Brasília e Washington.

O contexto dessa conversa não poderia ser mais tenso. O chamado “tarifaço” imposto por Trump — uma sobretaxa de até 50% sobre produtos brasileiros — acendeu o sinal vermelho no Itamaraty e no Ministério da Fazenda. Afetou diretamente setores agrícolas, metalúrgicos e têxteis, além de gerar insegurança no comércio bilateral. Foi um movimento de impacto político, mais do que econômico, pois veio acompanhado de insinuações sobre o caso Bolsonaro e críticas à liberdade de expressão no Brasil. Em outras palavras: um gesto de pressão e poder.

Lula, experiente em lidar com egos e contradições, entendeu que era hora de agir. A ligação não foi um ato impensado, mas uma peça calculada de xadrez diplomático. Ao convidar Trump para a COP30 em Belém e propor a retirada do tarifaço, o presidente brasileiro apostou na diplomacia do diálogo direto — sem intermediários, sem rancores. Um gesto pragmático, digno de quem compreende que política externa é o terreno da razão e não da emoção.

O detalhe mais curioso da conversa foi o clima descrito como “amistoso”. Trump, que em outros tempos flertou com o bolsonarismo e chegou a tratar o Brasil como extensão ideológica de sua própria política, agora fala em “boa química” com Lula. É a velha arte do cálculo geopolítico: o mesmo líder que já chamou o Brasil de “ameaça comercial” agora percebe a importância de uma parceria estratégica com o país que detém a Amazônia, terras raras e potencial energético inigualável.

Há, contudo, um dilema nessa aproximação. A diplomacia de Lula sempre foi marcada por princípios de soberania e solidariedade entre os povos do Sul Global, enquanto Trump opera na lógica transacional — ganha quem oferece mais. Será que há espaço para convergência entre essas visões? Talvez sim, se o interesse mútuo se sobrepor às ideologias. A economia fala alto, e os mercados já observam com atenção os sinais de descompressão.

O fato é que Lula sabe o peso simbólico de Trump. Em ano pré-eleitoral nos Estados Unidos, qualquer gesto de diálogo com o líder republicano projeta o Brasil novamente no centro do tabuleiro mundial. A América Latina volta a ser ouvida, não por submissão, mas por pragmatismo. Afinal, em tempos de guerras comerciais e disputas tecnológicas, nenhum país pode se dar ao luxo de escolher inimigos por convicção ideológica.

O telefonema desta segunda-feira é, acima de tudo, um ato político de alto risco — e de alta recompensa. Se o diálogo evoluir e o tarifaço for revisto, Lula terá demonstrado que a diplomacia ainda é a arma mais poderosa contra o populismo beligerante. Se fracassar, terá ao menos mostrado que o Brasil prefere a mesa de negociações à retórica de confronto.

Em um mundo dividido entre muros e pontes, Lula apostou na ponte. E, por ora, Trump parece disposto a atravessá-la.

(Padre Carlos)

Lula conversa com Donald Trump por telefone em meio a tarifaço sobre produtos brasileiros

 

 

 

Em política internacional, há momentos que mais parecem cenas de um filme improvável. A ligação de Lula para Donald Trump, ocorrida nesta segunda-feira (6), é uma dessas passagens em que o roteiro parece ultrapassar o limite do realismo diplomático. De um lado, um líder progressista latino-americano, defensor da multipolaridade e da regulação global; de outro, o símbolo máximo do populismo conservador e nacionalista norte-americano. E, no entanto, ali estavam os dois, trocando afagos e ensaiando o que pode ser uma reaproximação estratégica entre Brasília e Washington.

O contexto dessa conversa não poderia ser mais tenso. O chamado “tarifaço” imposto por Trump — uma sobretaxa de até 50% sobre produtos brasileiros — acendeu o sinal vermelho no Itamaraty e no Ministério da Fazenda. Afetou diretamente setores agrícolas, metalúrgicos e têxteis, além de gerar insegurança no comércio bilateral. Foi um movimento de impacto político, mais do que econômico, pois veio acompanhado de insinuações sobre o caso Bolsonaro e críticas à liberdade de expressão no Brasil. Em outras palavras: um gesto de pressão e poder.

Lula, experiente em lidar com egos e contradições, entendeu que era hora de agir. A ligação não foi um ato impensado, mas uma peça calculada de xadrez diplomático. Ao convidar Trump para a COP30 em Belém e propor a retirada do tarifaço, o presidente brasileiro apostou na diplomacia do diálogo direto — sem intermediários, sem rancores. Um gesto pragmático, digno de quem compreende que política externa é o terreno da razão e não da emoção.

O detalhe mais curioso da conversa foi o clima descrito como “amistoso”. Trump, que em outros tempos flertou com o bolsonarismo e chegou a tratar o Brasil como extensão ideológica de sua própria política, agora fala em “boa química” com Lula. É a velha arte do cálculo geopolítico: o mesmo líder que já chamou o Brasil de “ameaça comercial” agora percebe a importância de uma parceria estratégica com o país que detém a Amazônia, terras raras e potencial energético inigualável.

Há, contudo, um dilema nessa aproximação. A diplomacia de Lula sempre foi marcada por princípios de soberania e solidariedade entre os povos do Sul Global, enquanto Trump opera na lógica transacional — ganha quem oferece mais. Será que há espaço para convergência entre essas visões? Talvez sim, se o interesse mútuo se sobrepor às ideologias. A economia fala alto, e os mercados já observam com atenção os sinais de descompressão.

O fato é que Lula sabe o peso simbólico de Trump. Em ano pré-eleitoral nos Estados Unidos, qualquer gesto de diálogo com o líder republicano projeta o Brasil novamente no centro do tabuleiro mundial. A América Latina volta a ser ouvida, não por submissão, mas por pragmatismo. Afinal, em tempos de guerras comerciais e disputas tecnológicas, nenhum país pode se dar ao luxo de escolher inimigos por convicção ideológica.

O telefonema desta segunda-feira é, acima de tudo, um ato político de alto risco — e de alta recompensa. Se o diálogo evoluir e o tarifaço for revisto, Lula terá demonstrado que a diplomacia ainda é a arma mais poderosa contra o populismo beligerante. Se fracassar, terá ao menos mostrado que o Brasil prefere a mesa de negociações à retórica de confronto.

Em um mundo dividido entre muros e pontes, Lula apostou na ponte. E, por ora, Trump parece disposto a atravessá-la.

(Padre Carlos)

Crônica: A Canção que Mora nas Rugas

 

 

Por Padre Carlos

Meus dedos já não dançam com a agilidade de outrora, mas ainda sabem escrever com pena invisível da memória. Cada ruga em meu rosto é um parágrafo, cada linha uma crônica que o tempo escreveu com mãos firmes e ternas. O espelho não mente: estou velho. Mas há uma juventude que insiste em morar dentro de mim, como uma criança escondida atrás das cortinas da pele.

O tempo, esse escultor silencioso, moldou meu corpo com paciência. Os joelhos rangem como portas antigas, os olhos perderam um pouco da nitidez, mas ganharam profundidade. Vejo mais do que antes — não com a retina, mas com a alma. E ela, ah, essa não envelhece. É como uma chama que resiste ao vento, pequena, mas teimosa.

🎶 A música da lembrança

Hoje, ao baixar o vidro do meu carro, o vento trouxe uma canção distante. Era a mesma balada que tocava no barzinho do Nordeste onde a conheci em 1982. Ela usava um vestido azul que dançava com o corpo, e seus olhos tinham o brilho de quem ainda não sabia que o tempo existe. Naquela tarde, dançamos até que o mundo esquecesse-se de girar. O cheiro de jasmim, o som do violão, o calor das mãos entrelaçadas — tudo voltou com uma força que me fez sorrir e chorar ao mesmo tempo.

A música tem esse poder: ela é a ponte entre o agora e o antes. Cada acorde é uma chave que abre portas trancadas pela pressa da vida. E quando fecho os olhos, sou novamente aquele rapaz puro, de cabelos encaracolados e sonhos grandes demais para caber no bolso.

🌿 A alma que floresce no inverno

Há quem diga que envelhecer é murchar. Discordo. É florir de outro jeito. A juventude é primavera, sim, mas a velhice é outono — e há beleza nas folhas que caem. A alma, essa viajante incansável, continua a se emocionar com o pôr do sol, com o riso de uma criança, com o cheiro de pão saindo do forno. Ela não se rende. Ela resiste.

Às vezes, escrevo cartas para amigos que já partiram ou deixaram de fazer parte do meu dia a dia. Não as envio claro. Mas ao escrever, sinto que eles me visitam. Conversamos sobre os tempos bons da Pituba da década de 60, rimos das bobagens do grupo de jovens e da época de militância, choramos juntos quando um amigo saia do seminário e não faria mais parte da nossa vida. A memória é um lugar onde ninguém morre de verdade nem lhe abandona.

🖋️ Epílogo de esperança

Se há algo que aprendi, é que a vida não se mede em anos, mas em instantes que nos atravessam como flechas de luz. A arte — seja uma canção, um poema ou um abraço — tem o dom de reacender o que parecia apagado. E enquanto houver lembrança, haverá juventude. Enquanto houver emoção, haverá vida.

Hoje, estou um velho com alma de menino. E isso basta.

Porque no fim, o tempo pode levar o corpo, mas jamais levará a música que mora nas rugas.

Crônica: A Canção que Mora nas Rugas

 

 

Por Padre Carlos

Meus dedos já não dançam com a agilidade de outrora, mas ainda sabem escrever com pena invisível da memória. Cada ruga em meu rosto é um parágrafo, cada linha uma crônica que o tempo escreveu com mãos firmes e ternas. O espelho não mente: estou velho. Mas há uma juventude que insiste em morar dentro de mim, como uma criança escondida atrás das cortinas da pele.

O tempo, esse escultor silencioso, moldou meu corpo com paciência. Os joelhos rangem como portas antigas, os olhos perderam um pouco da nitidez, mas ganharam profundidade. Vejo mais do que antes — não com a retina, mas com a alma. E ela, ah, essa não envelhece. É como uma chama que resiste ao vento, pequena, mas teimosa.

🎶 A música da lembrança

Hoje, ao baixar o vidro do meu carro, o vento trouxe uma canção distante. Era a mesma balada que tocava no barzinho do Nordeste onde a conheci em 1982. Ela usava um vestido azul que dançava com o corpo, e seus olhos tinham o brilho de quem ainda não sabia que o tempo existe. Naquela tarde, dançamos até que o mundo esquecesse-se de girar. O cheiro de jasmim, o som do violão, o calor das mãos entrelaçadas — tudo voltou com uma força que me fez sorrir e chorar ao mesmo tempo.

A música tem esse poder: ela é a ponte entre o agora e o antes. Cada acorde é uma chave que abre portas trancadas pela pressa da vida. E quando fecho os olhos, sou novamente aquele rapaz puro, de cabelos encaracolados e sonhos grandes demais para caber no bolso.

🌿 A alma que floresce no inverno

Há quem diga que envelhecer é murchar. Discordo. É florir de outro jeito. A juventude é primavera, sim, mas a velhice é outono — e há beleza nas folhas que caem. A alma, essa viajante incansável, continua a se emocionar com o pôr do sol, com o riso de uma criança, com o cheiro de pão saindo do forno. Ela não se rende. Ela resiste.

Às vezes, escrevo cartas para amigos que já partiram ou deixaram de fazer parte do meu dia a dia. Não as envio claro. Mas ao escrever, sinto que eles me visitam. Conversamos sobre os tempos bons da Pituba da década de 60, rimos das bobagens do grupo de jovens e da época de militância, choramos juntos quando um amigo saia do seminário e não faria mais parte da nossa vida. A memória é um lugar onde ninguém morre de verdade nem lhe abandona.

🖋️ Epílogo de esperança

Se há algo que aprendi, é que a vida não se mede em anos, mas em instantes que nos atravessam como flechas de luz. A arte — seja uma canção, um poema ou um abraço — tem o dom de reacender o que parecia apagado. E enquanto houver lembrança, haverá juventude. Enquanto houver emoção, haverá vida.

Hoje, estou um velho com alma de menino. E isso basta.

Porque no fim, o tempo pode levar o corpo, mas jamais levará a música que mora nas rugas.

Urgente: Acidente no anel viário de Vitória da Conquista

Na manhã desta segunda-feira, um acidente foi registrado no anel viário de Vitória da Conquista, nas proximidades do Recanto das Águas. De acordo com as informações que chegam ao blogue, uma mulher que conduzia um carro de passeio perdeu o controle do veículo, saiu da pista e acabou derrubando uma placa de sinalização.

O carro parou sobre o guard rail, e a condutora permanece dentro do veículo, sentindo fortes dores. Equipes do DNIT já estão no local prestando os primeiros atendimentos e sinalizando a via para evitar novos acidentes.

As causas do acidente ainda estão sendo apuradas.

Urgente: Acidente no anel viário de Vitória da Conquista

Na manhã desta segunda-feira, um acidente foi registrado no anel viário de Vitória da Conquista, nas proximidades do Recanto das Águas. De acordo com as informações que chegam ao blogue, uma mulher que conduzia um carro de passeio perdeu o controle do veículo, saiu da pista e acabou derrubando uma placa de sinalização.

O carro parou sobre o guard rail, e a condutora permanece dentro do veículo, sentindo fortes dores. Equipes do DNIT já estão no local prestando os primeiros atendimentos e sinalizando a via para evitar novos acidentes.

As causas do acidente ainda estão sendo apuradas.

O que será deste povo quando este velho partir?

 

 

 

 

 

Por Padre Carlos

Há rostos que se confundem com a história. Homens que, de tanto caminhar ao lado do povo, tornam-se quase chão, quase raiz. E quando esses homens envelhecem, não é só o tempo que pesa em seus ombros — é o país inteiro que se apoia ali, como quem teme cair.

Este velho, de cabelos brancos e sorriso gasto, não é apenas um nome nos jornais. É o rosto que apareceu quando o prato estava vazio, quando o salário não dava conta, quando o SUS precisava de mais que esperança. Foi sob sua sombra que o Brasil saiu do Mapa da Fome, que o salário mínimo voltou a respirar, que o povo viu o preço do arroz baixar e o gás chegar à casa sem sufocar o bolso.

Ele não prometeu milagres. Prometeu dignidade. E, aos poucos, com mãos calejadas de política e coração ainda inflamado de utopia, foi cumprindo. O Bolsa Família viu gente sair por vontade própria, não por abandono. O Pix virou trincheira contra os bancos. A Amazônia, por um instante, pareceu menos esquecida. E os Yanomami, menos invisíveis.

Mas agora, os dias avançam como quem não quer conversa. O tempo não pede licença. E a pergunta ecoa, dolorida, como um lamento que não quer resposta: O que será deste povo quando este velho partir?

Será que os mercados continuarão a se abrir? Que os médicos continuarão a chegar? Que o crime continuará a ser enfrentado com coragem e não com espetáculo? Será que a democracia resistirá sem sua voz rouca a defendê-la?

Porque há velhos que não são apenas velhos. São bússolas. São memória viva. São o fio que costura o tecido rasgado da esperança.

E quando partem, não levam só seus passos. Levam um pedaço do país que acreditou

 

O que será deste povo quando este velho partir?

 

 

 

 

 

Por Padre Carlos

Há rostos que se confundem com a história. Homens que, de tanto caminhar ao lado do povo, tornam-se quase chão, quase raiz. E quando esses homens envelhecem, não é só o tempo que pesa em seus ombros — é o país inteiro que se apoia ali, como quem teme cair.

Este velho, de cabelos brancos e sorriso gasto, não é apenas um nome nos jornais. É o rosto que apareceu quando o prato estava vazio, quando o salário não dava conta, quando o SUS precisava de mais que esperança. Foi sob sua sombra que o Brasil saiu do Mapa da Fome, que o salário mínimo voltou a respirar, que o povo viu o preço do arroz baixar e o gás chegar à casa sem sufocar o bolso.

Ele não prometeu milagres. Prometeu dignidade. E, aos poucos, com mãos calejadas de política e coração ainda inflamado de utopia, foi cumprindo. O Bolsa Família viu gente sair por vontade própria, não por abandono. O Pix virou trincheira contra os bancos. A Amazônia, por um instante, pareceu menos esquecida. E os Yanomami, menos invisíveis.

Mas agora, os dias avançam como quem não quer conversa. O tempo não pede licença. E a pergunta ecoa, dolorida, como um lamento que não quer resposta: O que será deste povo quando este velho partir?

Será que os mercados continuarão a se abrir? Que os médicos continuarão a chegar? Que o crime continuará a ser enfrentado com coragem e não com espetáculo? Será que a democracia resistirá sem sua voz rouca a defendê-la?

Porque há velhos que não são apenas velhos. São bússolas. São memória viva. São o fio que costura o tecido rasgado da esperança.

E quando partem, não levam só seus passos. Levam um pedaço do país que acreditou

 

Grave acidente na BA-263 nas proximidades do Capinal

Um grave acidente foi registrado na tarde deste sábado na BA-263, nas proximidades do povoado do Capinal.
De acordo com informações que chegam ao Blog, um carro colidiu com uma motocicleta que era conduzida por uma mulher.

Ainda não há detalhes sobre as circunstâncias do acidente nem sobre o estado de saúde da condutora da moto, identificada apenas como uma jovem do local.

Equipes de socorro foram acionadas e estiveram no local para prestar os primeiros atendimentos.
Mais informações a qualquer momento.

Grave acidente na BA-263 nas proximidades do Capinal

Um grave acidente foi registrado na tarde deste sábado na BA-263, nas proximidades do povoado do Capinal.
De acordo com informações que chegam ao Blog, um carro colidiu com uma motocicleta que era conduzida por uma mulher.

Ainda não há detalhes sobre as circunstâncias do acidente nem sobre o estado de saúde da condutora da moto, identificada apenas como uma jovem do local.

Equipes de socorro foram acionadas e estiveram no local para prestar os primeiros atendimentos.
Mais informações a qualquer momento.

ARTIGO – Bolsonaro, Tarcísio e o Jogo do Poder em 2026

 

 

(Padre Carlos)

A política brasileira nunca foi um terreno de certezas. Quem acompanha os movimentos recentes de Jair Bolsonaro já percebeu que, apesar do discurso aparentemente espontâneo, nada é dito sem cálculo. Sua mais nova afirmação de que deseja Ratinho Jr. como candidato à Presidência em 2026 soa, no mínimo, como uma cortina de fumaça.

Nos bastidores, o que Bolsonaro realmente gostaria de ver é Tarcísio de Freitas encabeçando o projeto nacional da direita. O governador de São Paulo, além de ser um quadro técnico que herdou boa parte da popularidade do ex-presidente, administra o segundo maior orçamento público do país — perdendo apenas para a União. Uma estrutura dessa magnitude representa poder, capilaridade e condições objetivas para um salto à Presidência.

Porém, o cenário mudou. As pesquisas apontam que Lula mantém força eleitoral, contrariando a expectativa de enfraquecimento acelerado de seu governo. Bolsonaro, pragmático e temeroso de um revés nas urnas, recua. Ao lançar o nome de Ratinho Jr., coloca um “boi de piranha” no jogo, alguém que pode ser queimado sem comprometer a principal carta que é Tarcísio.

A estratégia é clara: manter o governador de São Paulo em “standby” até janeiro de 2026, observando a evolução das pesquisas. Se Lula cair, Tarcísio pode ser lançado como o grande nome da direita. Se Lula continuar firme, Bolsonaro preserva seu aliado em São Paulo, garantindo assim o controle de um orçamento bilionário e um palanque estratégico para 2030.

Trata-se de um jogo de poder no qual as peças são movimentadas com cuidado. Bolsonaro sabe que, sem cargo e sem mandato, sua relevância política depende da sobrevivência de seus aliados. O discurso de neutralidade, portanto, é apenas uma encenação para ganhar tempo e proteger o verdadeiro trunfo.

O Brasil de 2026 será palco de um duelo não apenas entre esquerda e direita, mas também entre estratégias de sobrevivência e projetos de poder. A candidatura de Ratinho Jr., se confirmada, pode ser apenas um disfarce. Já Tarcísio, com sua caneta em São Paulo, segue sendo a peça-chave do tabuleiro bolsonarista.

ARTIGO – Bolsonaro, Tarcísio e o Jogo do Poder em 2026

 

 

(Padre Carlos)

A política brasileira nunca foi um terreno de certezas. Quem acompanha os movimentos recentes de Jair Bolsonaro já percebeu que, apesar do discurso aparentemente espontâneo, nada é dito sem cálculo. Sua mais nova afirmação de que deseja Ratinho Jr. como candidato à Presidência em 2026 soa, no mínimo, como uma cortina de fumaça.

Nos bastidores, o que Bolsonaro realmente gostaria de ver é Tarcísio de Freitas encabeçando o projeto nacional da direita. O governador de São Paulo, além de ser um quadro técnico que herdou boa parte da popularidade do ex-presidente, administra o segundo maior orçamento público do país — perdendo apenas para a União. Uma estrutura dessa magnitude representa poder, capilaridade e condições objetivas para um salto à Presidência.

Porém, o cenário mudou. As pesquisas apontam que Lula mantém força eleitoral, contrariando a expectativa de enfraquecimento acelerado de seu governo. Bolsonaro, pragmático e temeroso de um revés nas urnas, recua. Ao lançar o nome de Ratinho Jr., coloca um “boi de piranha” no jogo, alguém que pode ser queimado sem comprometer a principal carta que é Tarcísio.

A estratégia é clara: manter o governador de São Paulo em “standby” até janeiro de 2026, observando a evolução das pesquisas. Se Lula cair, Tarcísio pode ser lançado como o grande nome da direita. Se Lula continuar firme, Bolsonaro preserva seu aliado em São Paulo, garantindo assim o controle de um orçamento bilionário e um palanque estratégico para 2030.

Trata-se de um jogo de poder no qual as peças são movimentadas com cuidado. Bolsonaro sabe que, sem cargo e sem mandato, sua relevância política depende da sobrevivência de seus aliados. O discurso de neutralidade, portanto, é apenas uma encenação para ganhar tempo e proteger o verdadeiro trunfo.

O Brasil de 2026 será palco de um duelo não apenas entre esquerda e direita, mas também entre estratégias de sobrevivência e projetos de poder. A candidatura de Ratinho Jr., se confirmada, pode ser apenas um disfarce. Já Tarcísio, com sua caneta em São Paulo, segue sendo a peça-chave do tabuleiro bolsonarista.

Literatura baiana em destaque: Ramiro Oliveira lança obra baseada em fatos reais

 

 

 

A literatura sempre teve o poder de retratar as paixões humanas em suas contradições, revelando a complexidade da alma e dos dramas cotidianos. O escritor Ramiro Oliveira, presidente da Academia Itapetinguense de Letras, acaba de lançar em Itapetinga seu mais novo livro “Mulheres traídas, maridos inocentes”, uma obra baseada em fatos reais que mergulha no universo das aventuras amorosas e das histórias curiosas que circulam na vida de qualquer comunidade.

O lançamento, realizado na Academia Itapetinguense de Letras, não foi apenas a celebração de mais um título que entra para o acervo da literatura regional. Foi, sobretudo, um ato de afirmação cultural. O auditório cheio de amigos, professores, acadêmicos e entusiastas da literatura mostrou que ainda há espaço para a valorização da escrita local, sobretudo quando nasce da experiência vivida, do olhar sensível e do compromisso de contar histórias que nos pertencem.

Ramiro, aos 68 anos, soma em sua trajetória não apenas a escrita de oito livros, mas também a pluralidade de profissões e vivências: contador, contador de histórias, praticante de acupuntura, professor, e, acima de tudo, um homem que transforma vivências em narrativas. Seu estilo é marcado pela simplicidade e pela clareza, fazendo com que suas obras alcancem leitores de diferentes gerações.

O título do novo livro, por si só provocativo, revela o interesse do autor em dialogar com o público sobre temas universais: a traição, a inocência, o amor e o destino humano. São histórias que carregam tanto a dor quanto o humor, a ironia da vida e a capacidade de superação. Ao registrar essas experiências em linguagem acessível, Ramiro não apenas entretém, mas preserva a memória de uma geração, transformando em literatura aquilo que poderia se perder no tempo.

Mais do que um lançamento, o evento reafirmou a importância das Academias de Letras no interior do Brasil. Em tempos de globalização, é preciso reconhecer que a Academia Itapetinguense de Letras se mantém viva há 25 anos, revelando talentos e abrindo caminhos para jovens escritores, como a pequena Cristal Guzmão, de apenas 11 anos, que já começa a dar seus primeiros passos na escrita. Esse encontro entre gerações mostra que a literatura não morre: ela se reinventa no olhar dos que ousam escrever.

O livro de Ramiro Oliveira é também uma prova de que Itapetinga é um celeiro cultural. Cidade que já se destacou por sua tradição agropecuária, revela-se também como terra de poetas, cronistas e narradores de histórias. Valorizar esse patrimônio é um ato de resistência cultural e, ao mesmo tempo, de esperança.

“Mulheres traídas, maridos inocentes” não é apenas mais um título no mercado editorial. É um marco para a literatura baiana e, sobretudo, para a literatura regional, que ainda pulsa com vigor e verdade. Celebrar Ramiro Oliveira é celebrar o poder da palavra, a força da memória e o compromisso de manter viva a chama da cultura.

( Padre Carlos )

 

Literatura baiana em destaque: Ramiro Oliveira lança obra baseada em fatos reais

 

 

 

A literatura sempre teve o poder de retratar as paixões humanas em suas contradições, revelando a complexidade da alma e dos dramas cotidianos. O escritor Ramiro Oliveira, presidente da Academia Itapetinguense de Letras, acaba de lançar em Itapetinga seu mais novo livro “Mulheres traídas, maridos inocentes”, uma obra baseada em fatos reais que mergulha no universo das aventuras amorosas e das histórias curiosas que circulam na vida de qualquer comunidade.

O lançamento, realizado na Academia Itapetinguense de Letras, não foi apenas a celebração de mais um título que entra para o acervo da literatura regional. Foi, sobretudo, um ato de afirmação cultural. O auditório cheio de amigos, professores, acadêmicos e entusiastas da literatura mostrou que ainda há espaço para a valorização da escrita local, sobretudo quando nasce da experiência vivida, do olhar sensível e do compromisso de contar histórias que nos pertencem.

Ramiro, aos 68 anos, soma em sua trajetória não apenas a escrita de oito livros, mas também a pluralidade de profissões e vivências: contador, contador de histórias, praticante de acupuntura, professor, e, acima de tudo, um homem que transforma vivências em narrativas. Seu estilo é marcado pela simplicidade e pela clareza, fazendo com que suas obras alcancem leitores de diferentes gerações.

O título do novo livro, por si só provocativo, revela o interesse do autor em dialogar com o público sobre temas universais: a traição, a inocência, o amor e o destino humano. São histórias que carregam tanto a dor quanto o humor, a ironia da vida e a capacidade de superação. Ao registrar essas experiências em linguagem acessível, Ramiro não apenas entretém, mas preserva a memória de uma geração, transformando em literatura aquilo que poderia se perder no tempo.

Mais do que um lançamento, o evento reafirmou a importância das Academias de Letras no interior do Brasil. Em tempos de globalização, é preciso reconhecer que a Academia Itapetinguense de Letras se mantém viva há 25 anos, revelando talentos e abrindo caminhos para jovens escritores, como a pequena Cristal Guzmão, de apenas 11 anos, que já começa a dar seus primeiros passos na escrita. Esse encontro entre gerações mostra que a literatura não morre: ela se reinventa no olhar dos que ousam escrever.

O livro de Ramiro Oliveira é também uma prova de que Itapetinga é um celeiro cultural. Cidade que já se destacou por sua tradição agropecuária, revela-se também como terra de poetas, cronistas e narradores de histórias. Valorizar esse patrimônio é um ato de resistência cultural e, ao mesmo tempo, de esperança.

“Mulheres traídas, maridos inocentes” não é apenas mais um título no mercado editorial. É um marco para a literatura baiana e, sobretudo, para a literatura regional, que ainda pulsa com vigor e verdade. Celebrar Ramiro Oliveira é celebrar o poder da palavra, a força da memória e o compromisso de manter viva a chama da cultura.

( Padre Carlos )

 

Hiroshima ensinou a paz; já a Europa esqueceu o nazismo e revive a extrema-direita

 

 

Quando a tragédia não basta para transformar uma nação
(Padre Carlos)

Há uma ilusão recorrente na história: acreditar que toda tragédia, por si só, gera transformação positiva. Não é verdade. A dor pode ensinar, mas também pode ser esquecida; pode se tornar semente de reconstrução ou de novos ódios. É nesse ponto que a poesia de Gilberto Gil e João Donato, ao cantar que da explosão da bomba “fez nascer um Japão na paz”, nos provoca a refletir: nem todos os povos conseguem esta proeza.

O exemplo do Japão é emblemático. A bomba que devastou Hiroshima e Nagasaki poderia ter deixado apenas um país em ruínas. No entanto, a tragédia foi acompanhada de uma profunda reconstrução ética, cultural e moral. A nação japonesa encontrou, na disciplina e no espírito coletivo, a possibilidade de renascer. Reconstruiu-se não apenas no concreto, mas também na mentalidade, tornando-se símbolo de paz e progresso.

Mas a história da humanidade nos mostra que tragédia não é sinônimo automático de aprendizado. Basta olhar para a Europa. O continente foi dizimado pelo nazismo, que deixou marcas de horror na Segunda Guerra Mundial: milhões de mortos, cidades destruídas, sociedades fragmentadas. A promessa era de que nunca mais se repetiria tamanho desastre. No entanto, em pleno século XXI, vemos a ascensão da extrema-direita em vários países europeus, com discursos que resgatam preconceitos, autoritarismos e nacionalismos radicais.

Aqui está a diferença: não basta sofrer uma tragédia; é preciso cultivar uma cultura ética e moral capaz de sustentar a memória e de resistir às tentações do passado. O Japão construiu sua paz sobre a lembrança dolorosa da guerra. A Europa, apesar da memória do nazismo, permite que sementes da intolerância e do extremismo voltem a germinar.

O Brasil, por sua vez, deveria aprender com essas duas experiências. Tragédias nós temos de sobra: violência urbana, tragédias climáticas, desigualdades abissais, corrupção persistente. A questão é: conseguiremos transformar essas dores em consciência coletiva, ou apenas repetiremos os mesmos erros, deixando que as feridas virem cicatrizes esquecidas?

Tragédias podem ser pedagógicas, mas só quando acompanhadas de ética, cultura e responsabilidade histórica. Do contrário, elas apenas deixam escombros. A poesia de Gil e Donato nos lembra que a paz pode nascer do trauma — mas é preciso querer aprender. Do contrário, como a Europa que revive seus fantasmas, ficaremos reféns de uma memória curta e de um futuro repetitivo.

Hiroshima ensinou a paz; já a Europa esqueceu o nazismo e revive a extrema-direita

 

 

Quando a tragédia não basta para transformar uma nação
(Padre Carlos)

Há uma ilusão recorrente na história: acreditar que toda tragédia, por si só, gera transformação positiva. Não é verdade. A dor pode ensinar, mas também pode ser esquecida; pode se tornar semente de reconstrução ou de novos ódios. É nesse ponto que a poesia de Gilberto Gil e João Donato, ao cantar que da explosão da bomba “fez nascer um Japão na paz”, nos provoca a refletir: nem todos os povos conseguem esta proeza.

O exemplo do Japão é emblemático. A bomba que devastou Hiroshima e Nagasaki poderia ter deixado apenas um país em ruínas. No entanto, a tragédia foi acompanhada de uma profunda reconstrução ética, cultural e moral. A nação japonesa encontrou, na disciplina e no espírito coletivo, a possibilidade de renascer. Reconstruiu-se não apenas no concreto, mas também na mentalidade, tornando-se símbolo de paz e progresso.

Mas a história da humanidade nos mostra que tragédia não é sinônimo automático de aprendizado. Basta olhar para a Europa. O continente foi dizimado pelo nazismo, que deixou marcas de horror na Segunda Guerra Mundial: milhões de mortos, cidades destruídas, sociedades fragmentadas. A promessa era de que nunca mais se repetiria tamanho desastre. No entanto, em pleno século XXI, vemos a ascensão da extrema-direita em vários países europeus, com discursos que resgatam preconceitos, autoritarismos e nacionalismos radicais.

Aqui está a diferença: não basta sofrer uma tragédia; é preciso cultivar uma cultura ética e moral capaz de sustentar a memória e de resistir às tentações do passado. O Japão construiu sua paz sobre a lembrança dolorosa da guerra. A Europa, apesar da memória do nazismo, permite que sementes da intolerância e do extremismo voltem a germinar.

O Brasil, por sua vez, deveria aprender com essas duas experiências. Tragédias nós temos de sobra: violência urbana, tragédias climáticas, desigualdades abissais, corrupção persistente. A questão é: conseguiremos transformar essas dores em consciência coletiva, ou apenas repetiremos os mesmos erros, deixando que as feridas virem cicatrizes esquecidas?

Tragédias podem ser pedagógicas, mas só quando acompanhadas de ética, cultura e responsabilidade histórica. Do contrário, elas apenas deixam escombros. A poesia de Gil e Donato nos lembra que a paz pode nascer do trauma — mas é preciso querer aprender. Do contrário, como a Europa que revive seus fantasmas, ficaremos reféns de uma memória curta e de um futuro repetitivo.