Política e Resenha

ARTIGO – Pituba: Memórias que Sangram e Resistem nas Areias do Tempo

 

 

(Padre Carlos)


Há geografias que não cabem nos mapas. Existem lugares que habitam não apenas o espaço físico, mas o tempo interior — aquele que pulsa no coração como um segundo batimento. A Pituba, em Salvador, é um desses territórios da alma: onde cada rua é uma veia de memória e cada esquina carrega o eco dos anos sessenta.

Quando criança, sentado na cadeira alta da barbearia de Chico Cabeleireiro, no Chega Nego, eu não sabia que testemunhava o fim de uma era. Meus pés balançavam no ar enquanto a tesoura cortava mais do que cabelo — ela me tecia na trama invisível de um bairro cheio de segredos, histórias e silêncios.

As Cicatrizes Invisíveis da Orla de Salvador

A história da Pituba é marcada por apagamentos e renascimentos, uma dança entre o progresso urbano e a memória coletiva. Quando Antônio Carlos Magalhães assumiu a prefeitura em 1967, iniciou-se uma transformação radical da orla soteropolitana. O que parecia modernização foi, na verdade, também um desenraizamento social: famílias pobres foram retiradas das praias entre Ondina e o Bico de Ferro e empurradas para a Boca do Rio.

Esse deslocamento não foi apenas geográfico — foi emocional. Um exílio silencioso de quem tinha no mar seu sustento e sua identidade. No lugar dessas vidas, nasceu o Jardim dos Namorados: bonito, limpo e turístico. Mas sob o concreto e as palmeiras ornamentais, jazem histórias soterradas que o tempo insiste em resgatar.

Chega Nego: o Nome e a Ferida

O antigo “Chega Nego”, carrega uma dor antiga. Aquela praia, hoje tranquila, foi palco de desembarques clandestinos de africanos escravizados, mesmo depois da proibição do tráfico em 1850.

Aquelas areias viram corpos exaustos, mães separadas dos filhos e o grito desesperado “Chega Nego!” — um alerta e um pedido de salvação. Negociantes como Francisco José Godinho e Joaquim Alves da Cruz Rios enriqueceram à custa do sofrimento humano, transformando a costa soteropolitana em um palco de desumanização.

Mais tarde, figuras da boemia como Xaxá e o lendário Bar Bico de Ferro deram um novo ritmo àquele cenário, onde a alegria era também resistência. Nas noites de música e dança, o povo afirmava sua humanidade diante da dor.

A Memória como Ato de Justiça

A modernização de Salvador levantou uma pergunta que ainda ecoa: a que preço vem o progresso?
A urbanização, tão celebrada, muitas vezes significou o apagamento das comunidades negras e de suas histórias. O Jardim dos Namorados é belo, mas sua beleza repousa sobre camadas de esquecimento.

Preservar a memória não é nostalgia — é justiça histórica. É reconhecer que as vozes silenciadas também construíram Salvador. Seus nomes, lutas e dores fazem parte do tecido da cidade.

O Que as Pedras Ainda Sussurram

Caminhar pela Pituba hoje é sentir as pedras falarem. O vento do mar traz ecos de vozes que o tempo não conseguiu apagar. A barbearia de Chico já não existe, o Bico de Ferro virou lembrança, e o Chega Nego vive apenas em registros históricos.

Mas a memória é teimosa. Ela resiste nas histórias contadas pelos mais velhos, nos arquivos empoeirados e nas tradições orais das comunidades afrodescendentes. A Pituba nos ensina que é possível construir o futuro sem demolir o passado — celebrar o amor presente sem negar as lágrimas que o antecederam.

Um Convite ao Lembrar

Este texto é um convite a olhar a Pituba com outros olhos — a perceber nas fachadas modernas as sombras de outras épocas, a escutar nas ondas do mar as vozes que o tempo quis calar.

Convido você a conversar com os anciãos, a registrar memórias, a questionar as narrativas oficiais. A identidade de um povo nasce também da coragem de não esquecer o que é doloroso.

A grandeza de uma cidade não está em esconder suas feridas, mas em reconhecê-las e aprender com elas.

Raízes que Não se Arrancam

Hoje, aos 65 anos, compreendo que aquele menino na cadeira do barbeiro foi iniciado na história viva de Salvador. A Pituba é minha raiz, mas também é ferida e cura, apagamento e resistência.

Amar uma cidade é aceitar suas contradições e jamais permitir que as vozes do passado sejam sufocadas pelo barulho do presente.

Que o Jardim dos Namorados floresça com palmeiras e com memória. Que cada placa, cada rua, conte também a história dos que resistiram e construíram a Salvador que hoje habitamos.

Com reverência às memórias que nos sustentam e às histórias que ainda precisam ser contadas,
Padre Carlos
Salvador, novembro de 2025

ARTIGO – Pituba: Memórias que Sangram e Resistem nas Areias do Tempo

 

 

(Padre Carlos)


Há geografias que não cabem nos mapas. Existem lugares que habitam não apenas o espaço físico, mas o tempo interior — aquele que pulsa no coração como um segundo batimento. A Pituba, em Salvador, é um desses territórios da alma: onde cada rua é uma veia de memória e cada esquina carrega o eco dos anos sessenta.

Quando criança, sentado na cadeira alta da barbearia de Chico Cabeleireiro, no Chega Nego, eu não sabia que testemunhava o fim de uma era. Meus pés balançavam no ar enquanto a tesoura cortava mais do que cabelo — ela me tecia na trama invisível de um bairro cheio de segredos, histórias e silêncios.

As Cicatrizes Invisíveis da Orla de Salvador

A história da Pituba é marcada por apagamentos e renascimentos, uma dança entre o progresso urbano e a memória coletiva. Quando Antônio Carlos Magalhães assumiu a prefeitura em 1967, iniciou-se uma transformação radical da orla soteropolitana. O que parecia modernização foi, na verdade, também um desenraizamento social: famílias pobres foram retiradas das praias entre Ondina e o Bico de Ferro e empurradas para a Boca do Rio.

Esse deslocamento não foi apenas geográfico — foi emocional. Um exílio silencioso de quem tinha no mar seu sustento e sua identidade. No lugar dessas vidas, nasceu o Jardim dos Namorados: bonito, limpo e turístico. Mas sob o concreto e as palmeiras ornamentais, jazem histórias soterradas que o tempo insiste em resgatar.

Chega Nego: o Nome e a Ferida

O antigo “Chega Nego”, carrega uma dor antiga. Aquela praia, hoje tranquila, foi palco de desembarques clandestinos de africanos escravizados, mesmo depois da proibição do tráfico em 1850.

Aquelas areias viram corpos exaustos, mães separadas dos filhos e o grito desesperado “Chega Nego!” — um alerta e um pedido de salvação. Negociantes como Francisco José Godinho e Joaquim Alves da Cruz Rios enriqueceram à custa do sofrimento humano, transformando a costa soteropolitana em um palco de desumanização.

Mais tarde, figuras da boemia como Xaxá e o lendário Bar Bico de Ferro deram um novo ritmo àquele cenário, onde a alegria era também resistência. Nas noites de música e dança, o povo afirmava sua humanidade diante da dor.

A Memória como Ato de Justiça

A modernização de Salvador levantou uma pergunta que ainda ecoa: a que preço vem o progresso?
A urbanização, tão celebrada, muitas vezes significou o apagamento das comunidades negras e de suas histórias. O Jardim dos Namorados é belo, mas sua beleza repousa sobre camadas de esquecimento.

Preservar a memória não é nostalgia — é justiça histórica. É reconhecer que as vozes silenciadas também construíram Salvador. Seus nomes, lutas e dores fazem parte do tecido da cidade.

O Que as Pedras Ainda Sussurram

Caminhar pela Pituba hoje é sentir as pedras falarem. O vento do mar traz ecos de vozes que o tempo não conseguiu apagar. A barbearia de Chico já não existe, o Bico de Ferro virou lembrança, e o Chega Nego vive apenas em registros históricos.

Mas a memória é teimosa. Ela resiste nas histórias contadas pelos mais velhos, nos arquivos empoeirados e nas tradições orais das comunidades afrodescendentes. A Pituba nos ensina que é possível construir o futuro sem demolir o passado — celebrar o amor presente sem negar as lágrimas que o antecederam.

Um Convite ao Lembrar

Este texto é um convite a olhar a Pituba com outros olhos — a perceber nas fachadas modernas as sombras de outras épocas, a escutar nas ondas do mar as vozes que o tempo quis calar.

Convido você a conversar com os anciãos, a registrar memórias, a questionar as narrativas oficiais. A identidade de um povo nasce também da coragem de não esquecer o que é doloroso.

A grandeza de uma cidade não está em esconder suas feridas, mas em reconhecê-las e aprender com elas.

Raízes que Não se Arrancam

Hoje, aos 65 anos, compreendo que aquele menino na cadeira do barbeiro foi iniciado na história viva de Salvador. A Pituba é minha raiz, mas também é ferida e cura, apagamento e resistência.

Amar uma cidade é aceitar suas contradições e jamais permitir que as vozes do passado sejam sufocadas pelo barulho do presente.

Que o Jardim dos Namorados floresça com palmeiras e com memória. Que cada placa, cada rua, conte também a história dos que resistiram e construíram a Salvador que hoje habitamos.

Com reverência às memórias que nos sustentam e às histórias que ainda precisam ser contadas,
Padre Carlos
Salvador, novembro de 2025

A “Matança” no Rio e o Silêncio que Fere a Democracia

 

 

Por Padre Carlos

Há palavras que não são apenas ditas — são cravadas. Quando o presidente Lula chamou de “matança” a operação policial no Rio de Janeiro, não fez apenas um juízo de valor: lançou uma pedra no espelho da hipocrisia nacional. O termo incomodou porque rompeu o pacto tácito de silêncio que costuma proteger a brutalidade sob o manto da “segurança pública”.

Entre o verbo e a bala
No Brasil, o verbo é sempre mais vigiado que a bala. Quando o Estado mata dezenas em favelas, fala-se em “confronto”, “ação necessária”, “combate ao crime”. Quando o presidente ousa nomear o que se viu — corpos caídos, mães desesperadas, vidas descartadas — a elite se escandaliza. O incômodo não está no sangue derramado, mas em quem ousa dizer seu nome.

A palavra “matança” é incômoda porque devolve humanidade às vítimas. Obriga o país a olhar o abismo que prefere ignorar. É o mesmo abismo que separa as zonas nobres dos becos encharcados de medo, onde o Estado chega apenas em forma de caveirão.

O espelho baiano
Na Bahia, sob governo petista, uma operação semelhante terminou com dezenas de presos e apenas um morto. A comparação escancara o que se tenta esconder: é possível combater o crime sem transformar o asfalto em cemitério. O secretário baiano Felipe Freitas disse o óbvio que tantos calam — “houve opção pelo confronto”. Sim, sempre há escolha. O que falta é vontade de escolher a vida.

A guerra das narrativas
A reação da oposição foi previsível: acusar o presidente de “defender bandidos”. É o velho roteiro eleitoral brasileiro, onde a empatia vira fraqueza e a compaixão, cumplicidade. Lula tentou equilibrar-se entre a ética e o pragmatismo, mas sua fala, ainda que politicamente arriscada, acendeu o debate mais necessário: o da dignidade humana em tempos de medo.

Há quem diga que o presidente se equivocou. Eu digo que, pela primeira vez em muito tempo, alguém chamou o horror pelo nome certo.

O dilema da esquerda
A esquerda brasileira ainda caminha sobre cacos de vidro quando o assunto é segurança pública. Defende direitos humanos, mas teme perder votos; denuncia o abuso, mas hesita diante do pânico coletivo. Enquanto isso, a direita se alimenta do medo, transforma a morte em política e o ódio em projeto de poder.

Conclusão
Chamar de “matança” o que é matança não é radicalismo, é lucidez. A democracia se mede também pela coragem de encarar seus monstros — inclusive aqueles que vestem farda e falam em nome da lei. O Brasil precisa decidir se quer um Estado que proteja a vida ou um Estado que a conte em estatísticas.

No fim, a palavra de Lula ecoa não como erro, mas como denúncia. Porque há momentos em que calar é cúmplice, e dizer é o único ato de justiça possível.

A “Matança” no Rio e o Silêncio que Fere a Democracia

 

 

Por Padre Carlos

Há palavras que não são apenas ditas — são cravadas. Quando o presidente Lula chamou de “matança” a operação policial no Rio de Janeiro, não fez apenas um juízo de valor: lançou uma pedra no espelho da hipocrisia nacional. O termo incomodou porque rompeu o pacto tácito de silêncio que costuma proteger a brutalidade sob o manto da “segurança pública”.

Entre o verbo e a bala
No Brasil, o verbo é sempre mais vigiado que a bala. Quando o Estado mata dezenas em favelas, fala-se em “confronto”, “ação necessária”, “combate ao crime”. Quando o presidente ousa nomear o que se viu — corpos caídos, mães desesperadas, vidas descartadas — a elite se escandaliza. O incômodo não está no sangue derramado, mas em quem ousa dizer seu nome.

A palavra “matança” é incômoda porque devolve humanidade às vítimas. Obriga o país a olhar o abismo que prefere ignorar. É o mesmo abismo que separa as zonas nobres dos becos encharcados de medo, onde o Estado chega apenas em forma de caveirão.

O espelho baiano
Na Bahia, sob governo petista, uma operação semelhante terminou com dezenas de presos e apenas um morto. A comparação escancara o que se tenta esconder: é possível combater o crime sem transformar o asfalto em cemitério. O secretário baiano Felipe Freitas disse o óbvio que tantos calam — “houve opção pelo confronto”. Sim, sempre há escolha. O que falta é vontade de escolher a vida.

A guerra das narrativas
A reação da oposição foi previsível: acusar o presidente de “defender bandidos”. É o velho roteiro eleitoral brasileiro, onde a empatia vira fraqueza e a compaixão, cumplicidade. Lula tentou equilibrar-se entre a ética e o pragmatismo, mas sua fala, ainda que politicamente arriscada, acendeu o debate mais necessário: o da dignidade humana em tempos de medo.

Há quem diga que o presidente se equivocou. Eu digo que, pela primeira vez em muito tempo, alguém chamou o horror pelo nome certo.

O dilema da esquerda
A esquerda brasileira ainda caminha sobre cacos de vidro quando o assunto é segurança pública. Defende direitos humanos, mas teme perder votos; denuncia o abuso, mas hesita diante do pânico coletivo. Enquanto isso, a direita se alimenta do medo, transforma a morte em política e o ódio em projeto de poder.

Conclusão
Chamar de “matança” o que é matança não é radicalismo, é lucidez. A democracia se mede também pela coragem de encarar seus monstros — inclusive aqueles que vestem farda e falam em nome da lei. O Brasil precisa decidir se quer um Estado que proteja a vida ou um Estado que a conte em estatísticas.

No fim, a palavra de Lula ecoa não como erro, mas como denúncia. Porque há momentos em que calar é cúmplice, e dizer é o único ato de justiça possível.

O Chão Que Nunca Nos Deixa

 

 

 

Quando o coração reconhece o caminho de casa

Há um tipo de saudade que não mora nos olhos — mora nas mãos. É aquela que faz você reconhecer o formato exato de um abraço antes mesmo de ele acontecer. É a que traz o cheiro da terra molhada de São Miguel das Matas enquanto você caminha pelo asfalto de Vitória da Conquista. É a que te faz chorar sem avisar quando você ouve um sotaque familiar no meio da multidão.

Neste domingo, essa saudade terá nome, endereço e mesa posta.

O Encontro dos Miguelenses não é sobre voltar. É sobre nunca ter ido embora.


Você já reparou como a memória tem geografia própria? Como certos lugares não precisam de GPS porque estão tatuados na bússola do peito? São Miguel das Matas não é um ponto no mapa — é uma coordenada emocional. É o lugar onde suas raízes aprenderam a respirar antes mesmo de você saber andar.

E então a vida acontece. A estrada se abre. As malas se fazem. O futuro acena de longe e você parte — não porque quer deixar, mas porque precisa buscar. E nessa partida carrega algo invisível e indestrutível: o jeito miguelense de ser gente.

Aquele modo discreto de cuidar. Aquela solidariedade que não precisa de holofotes. Aquela fé que não grita, mas sustenta. Aquele sorriso que diz “eu te reconheço” mesmo depois de anos sem se ver.

Porque miguelense não é o que você nasceu. É o que você nunca deixa de ser.


A Paróquia Nossa Senhora das Graças já sabe o que vai acontecer. Ela conhece o barulho específico de um povo que se reencontra. Não é o burburinho comum de uma celebração — é uma sinfonia de reconhecimentos:

O som de um nome dito com espanto: “Você?!
O silêncio grávido de lágrimas antes do abraço apertado.
A risada que explode quando alguém lembra daquela história antiga.
O murmúrio comovido de quem percebe que envelheceram juntos, mesmo separados.

E depois da missa, quando as portas se abrem para o encontro verdadeiro, acontece o milagre cotidiano que os miguelenses conhecem bem: a mesa.

Aquela mesa onde o sagrado e o profano se misturam sem pudor. Onde o café quentinho divide espaço com as histórias mal contadas de tanto rir. Onde os quitutes tradicionais carregam o gosto da infância e o peso da ausência. Onde cada broa de milho é uma oração comestível e cada gole de café é uma benção líquida.

Ali, naquela mesa imperfeita e barulhenta, Deus está tão presente quanto nas orações sussurradas.


Mas este encontro carrega algo que transcende a nostalgia. Ele traz consigo uma missão que os miguelenses nunca esqueceram: a de ser família além do sangue. Por isso cada participante leva nas mãos 1 kg de alimento — pequeno peso que carrega um universo de significado.

É o gesto que lembra: a fé que não partilha é fome disfarçada de oração.

Porque os miguelenses aprenderam em São Miguel das Matas que a espiritualidade verdadeira não é etérea — ela tem o peso exato de um quilo de arroz nas mãos de quem precisa. Ela tem o rosto das crianças que vão comer por causa desse gesto simples. Ela tem a textura da solidariedade que se recusa a ser apenas palavra bonita.

Vocação coletiva é isso: quando seu bem-estar depende do bem-estar do outro.


Talvez você esteja lendo estas palavras e sentindo aquele aperto no peito. Aquela vontade de estar lá que dói fisicamente. Aquela certeza de que, não importa quantos anos se passem ou quantos quilômetros te separem, São Miguel das Matas nunca vai sair de dentro de você.

E está tudo bem sentir isso.

Está mais que bem — está sagrado.

Porque a verdadeira geografia não é feita de longitude e latitude. É feita de laços que o tempo não desfaz, de abraços que a distância não enfraquece, de pertencimentos que nenhuma mudança de endereço consegue apagar.

Vitória da Conquista e São Miguel das Matas não são duas cidades separadas por estrada. São dois batimentos do mesmo coração. E este domingo, esse coração vai pulsar tão forte que o mundo inteiro vai sentir.


Miguelense que está longe: guarde este domingo na memória com carinho. Um dia, quando a vida permitir, você estará nessa roda. E quando chegar, não vai precisar explicar nada — vão te reconhecer pelo jeito que você sorri, pelo modo como abraça, pela luz nos olhos quando alguém fala daquele lugar que você nunca deixou.

Miguelense que vai estar presente: abrace por você e por quem não pode ir. Ria alto. Chore sem vergonha. Coma devagar. Olhe nos olhos. Grave tudo. Porque você está vivendo um dos poucos milagres que ainda restam neste mundo apressado: o milagre de pertencer, de ser reconhecido, de estar em casa sem precisar voltar.

E aos que nunca pisaram em São Miguel das Matas mas reconhecem essa dor-doce da pertença: você também é bem-vindo a este encontro. Porque todo mundo que já sentiu saudade de casa sabe exatamente do que estamos falando. Todo mundo que já partiu carregando um pedaço de chão no peito entende perfeitamente esta linguagem.


O 26º Encontro dos Miguelenses acontece neste domingo não porque é conveniente, não porque está no calendário, mas porque é urgente. Urgente lembrar quem somos quando o mundo insiste em nos fazer esquecer. Urgente abraçar quando a vida moderna nos ensina a apenas curtir. Urgente partilhar quando o individualismo berra que cada um cuide de si.

Este encontro é um ato de resistência. Uma teimosia bendita. Uma recusa amorosa a deixar que o tempo e a distância vençam.

Então neste domingo, quando o sino da Paróquia Nossa Senhora das Graças tocar, ele não estará chamando apenas para uma missa. Estará chamando um povo inteiro de volta para casa — aquela casa que nunca está num endereço, mas sempre dentro do peito.

Porque com São Miguel, somos famílias que caminham com fé e esperança.

Mas mais que isso: somos raízes que viraram asas, sem nunca deixar de ser raízes.

Somos o chão que aprendeu a voar.

E neste domingo, vamos pousar juntos — nem que seja por algumas horas — no único território que realmente importa: o território do pertencimento.


Nos vemos na mesa, miguelense.
Guarde o abraço apertado.
Traga a saudade inteira.
Venha de coração aberto e sacola cheia.

Porque lá, naquele encontro improvável e necessário, você vai lembrar de algo que o mundo quase te fez esquecer:

Você não está sozinho.
Você nunca esteve.
Você é parte de uma trama invisível e inquebrável chamada família miguelense.

E isso, meu irmão, minha irmã — isso ninguém tira de você.

Nem o tempo. Nem a distância. Nem o esquecimento.


Com todo o amor que cabe numa palavra,
Padre Carlos

P.S.: Se você chorou lendo este texto, está no lugar certo. Lágrimas de pertencimento são as mais sagradas que existem.

O Chão Que Nunca Nos Deixa

 

 

 

Quando o coração reconhece o caminho de casa

Há um tipo de saudade que não mora nos olhos — mora nas mãos. É aquela que faz você reconhecer o formato exato de um abraço antes mesmo de ele acontecer. É a que traz o cheiro da terra molhada de São Miguel das Matas enquanto você caminha pelo asfalto de Vitória da Conquista. É a que te faz chorar sem avisar quando você ouve um sotaque familiar no meio da multidão.

Neste domingo, essa saudade terá nome, endereço e mesa posta.

O Encontro dos Miguelenses não é sobre voltar. É sobre nunca ter ido embora.


Você já reparou como a memória tem geografia própria? Como certos lugares não precisam de GPS porque estão tatuados na bússola do peito? São Miguel das Matas não é um ponto no mapa — é uma coordenada emocional. É o lugar onde suas raízes aprenderam a respirar antes mesmo de você saber andar.

E então a vida acontece. A estrada se abre. As malas se fazem. O futuro acena de longe e você parte — não porque quer deixar, mas porque precisa buscar. E nessa partida carrega algo invisível e indestrutível: o jeito miguelense de ser gente.

Aquele modo discreto de cuidar. Aquela solidariedade que não precisa de holofotes. Aquela fé que não grita, mas sustenta. Aquele sorriso que diz “eu te reconheço” mesmo depois de anos sem se ver.

Porque miguelense não é o que você nasceu. É o que você nunca deixa de ser.


A Paróquia Nossa Senhora das Graças já sabe o que vai acontecer. Ela conhece o barulho específico de um povo que se reencontra. Não é o burburinho comum de uma celebração — é uma sinfonia de reconhecimentos:

O som de um nome dito com espanto: “Você?!
O silêncio grávido de lágrimas antes do abraço apertado.
A risada que explode quando alguém lembra daquela história antiga.
O murmúrio comovido de quem percebe que envelheceram juntos, mesmo separados.

E depois da missa, quando as portas se abrem para o encontro verdadeiro, acontece o milagre cotidiano que os miguelenses conhecem bem: a mesa.

Aquela mesa onde o sagrado e o profano se misturam sem pudor. Onde o café quentinho divide espaço com as histórias mal contadas de tanto rir. Onde os quitutes tradicionais carregam o gosto da infância e o peso da ausência. Onde cada broa de milho é uma oração comestível e cada gole de café é uma benção líquida.

Ali, naquela mesa imperfeita e barulhenta, Deus está tão presente quanto nas orações sussurradas.


Mas este encontro carrega algo que transcende a nostalgia. Ele traz consigo uma missão que os miguelenses nunca esqueceram: a de ser família além do sangue. Por isso cada participante leva nas mãos 1 kg de alimento — pequeno peso que carrega um universo de significado.

É o gesto que lembra: a fé que não partilha é fome disfarçada de oração.

Porque os miguelenses aprenderam em São Miguel das Matas que a espiritualidade verdadeira não é etérea — ela tem o peso exato de um quilo de arroz nas mãos de quem precisa. Ela tem o rosto das crianças que vão comer por causa desse gesto simples. Ela tem a textura da solidariedade que se recusa a ser apenas palavra bonita.

Vocação coletiva é isso: quando seu bem-estar depende do bem-estar do outro.


Talvez você esteja lendo estas palavras e sentindo aquele aperto no peito. Aquela vontade de estar lá que dói fisicamente. Aquela certeza de que, não importa quantos anos se passem ou quantos quilômetros te separem, São Miguel das Matas nunca vai sair de dentro de você.

E está tudo bem sentir isso.

Está mais que bem — está sagrado.

Porque a verdadeira geografia não é feita de longitude e latitude. É feita de laços que o tempo não desfaz, de abraços que a distância não enfraquece, de pertencimentos que nenhuma mudança de endereço consegue apagar.

Vitória da Conquista e São Miguel das Matas não são duas cidades separadas por estrada. São dois batimentos do mesmo coração. E este domingo, esse coração vai pulsar tão forte que o mundo inteiro vai sentir.


Miguelense que está longe: guarde este domingo na memória com carinho. Um dia, quando a vida permitir, você estará nessa roda. E quando chegar, não vai precisar explicar nada — vão te reconhecer pelo jeito que você sorri, pelo modo como abraça, pela luz nos olhos quando alguém fala daquele lugar que você nunca deixou.

Miguelense que vai estar presente: abrace por você e por quem não pode ir. Ria alto. Chore sem vergonha. Coma devagar. Olhe nos olhos. Grave tudo. Porque você está vivendo um dos poucos milagres que ainda restam neste mundo apressado: o milagre de pertencer, de ser reconhecido, de estar em casa sem precisar voltar.

E aos que nunca pisaram em São Miguel das Matas mas reconhecem essa dor-doce da pertença: você também é bem-vindo a este encontro. Porque todo mundo que já sentiu saudade de casa sabe exatamente do que estamos falando. Todo mundo que já partiu carregando um pedaço de chão no peito entende perfeitamente esta linguagem.


O 26º Encontro dos Miguelenses acontece neste domingo não porque é conveniente, não porque está no calendário, mas porque é urgente. Urgente lembrar quem somos quando o mundo insiste em nos fazer esquecer. Urgente abraçar quando a vida moderna nos ensina a apenas curtir. Urgente partilhar quando o individualismo berra que cada um cuide de si.

Este encontro é um ato de resistência. Uma teimosia bendita. Uma recusa amorosa a deixar que o tempo e a distância vençam.

Então neste domingo, quando o sino da Paróquia Nossa Senhora das Graças tocar, ele não estará chamando apenas para uma missa. Estará chamando um povo inteiro de volta para casa — aquela casa que nunca está num endereço, mas sempre dentro do peito.

Porque com São Miguel, somos famílias que caminham com fé e esperança.

Mas mais que isso: somos raízes que viraram asas, sem nunca deixar de ser raízes.

Somos o chão que aprendeu a voar.

E neste domingo, vamos pousar juntos — nem que seja por algumas horas — no único território que realmente importa: o território do pertencimento.


Nos vemos na mesa, miguelense.
Guarde o abraço apertado.
Traga a saudade inteira.
Venha de coração aberto e sacola cheia.

Porque lá, naquele encontro improvável e necessário, você vai lembrar de algo que o mundo quase te fez esquecer:

Você não está sozinho.
Você nunca esteve.
Você é parte de uma trama invisível e inquebrável chamada família miguelense.

E isso, meu irmão, minha irmã — isso ninguém tira de você.

Nem o tempo. Nem a distância. Nem o esquecimento.


Com todo o amor que cabe numa palavra,
Padre Carlos

P.S.: Se você chorou lendo este texto, está no lugar certo. Lágrimas de pertencimento são as mais sagradas que existem.

Em roteiro turístico pelo Pelourinho, Jerônimo Rodrigues apresenta a cultura baiana para Emmanuel Macron

Na tarde desta quarta-feira (5) o presidente da França, Emmanuel Macron visitou o Centro Histórico da capital baiana acompanhado do governador Jerônimo Rodrigues e da ministra da Cultura, Margareth Menezes, além de outras autoridades. Durante o trajeto, a Banda Feminina Dida, o Bloco Afro Olodum e os Filhos de Gandhy mostraram a força e beleza da cultura baiana aos visitantes.

A comitiva do presidente da França foi recepcionada pelo governador ainda no aeroporto e seguiram direto para a Galeria Fundação Pierre Verger, na Praça da Sé. Em seguida, caminharam pelo Centro Histórico, passando pelo Terreiro de Jesus, Largo do Pelourinho até a Casa do Benin, onde foi finalizado o roteiro no Pelourinho, seguindo para a agenda institucional na abertura do Festival Nosso Futuro, no Museu de Arte Moderna da Bahia, na avenida Contorno.

Em roteiro turístico pelo Pelourinho, Jerônimo Rodrigues apresenta a cultura baiana para Emmanuel Macron

Na tarde desta quarta-feira (5) o presidente da França, Emmanuel Macron visitou o Centro Histórico da capital baiana acompanhado do governador Jerônimo Rodrigues e da ministra da Cultura, Margareth Menezes, além de outras autoridades. Durante o trajeto, a Banda Feminina Dida, o Bloco Afro Olodum e os Filhos de Gandhy mostraram a força e beleza da cultura baiana aos visitantes.

A comitiva do presidente da França foi recepcionada pelo governador ainda no aeroporto e seguiram direto para a Galeria Fundação Pierre Verger, na Praça da Sé. Em seguida, caminharam pelo Centro Histórico, passando pelo Terreiro de Jesus, Largo do Pelourinho até a Casa do Benin, onde foi finalizado o roteiro no Pelourinho, seguindo para a agenda institucional na abertura do Festival Nosso Futuro, no Museu de Arte Moderna da Bahia, na avenida Contorno.

ARTIGO – A UFBA e a Ruptura dos Antigos Companheiros

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos na vida institucional em que as alianças do passado se desmancham no ar, como se o tempo revelasse que afinidades antigas eram, na verdade, pontes provisórias. É o que ocorre agora na Universidade Federal da Bahia (UFBA), palco de uma disputa que ultrapassa a simples sucessão administrativa: a pré-candidatura de João Carlos Salles e Penildon Silva Filho à reitoria de 2026 marca um divisor de águas no pensamento e no destino político da universidade.

Durante quase uma década, Salles e Penildon caminharam lado a lado. O primeiro, filósofo e ex-reitor entre 2014 e 2022, representava a sobriedade acadêmica e a defesa intransigente da autonomia universitária. O segundo, professor e atual vice-reitor, era um de seus mais próximos colaboradores — ocupou o cargo de pró-reitor de graduação e tornou-se, depois, o braço direito do reitor Paulo Miguez. Juntos, construíram um projeto de universidade plural, democrática e humanista.

Mas o tempo político das instituições é implacável. As estruturas que um dia se complementaram hoje se enfrentam em campos opostos. De um lado, João Carlos Salles, que tenta retornar ao comando com o slogan “Somos UFBA”, evocando a resistência à ingerência externa e o combate ao obscurantismo. De outro, Penildon Silva Filho, que apresenta uma proposta de “diálogo, ciência e projeto de Nação”, prometendo abrir a universidade a novos debates e vozes. Ambos invocam os mesmos princípios — autonomia, democracia, inclusão — mas a leitura desses conceitos revela sutis e profundas divergências.

Salles, com seu tom filosófico, quer reafirmar a universidade como bastião da liberdade intelectual, um espaço que se recusa a dobrar-se às “falsas promessas de progresso”. É uma candidatura que apela à memória — à UFBA que resistiu ao projeto Future-se e às tentativas de intervenção federal. Já Penildon, mais pragmático e afeito à linguagem da gestão moderna, fala em construir “um projeto coletivo de Nação”, inserindo a UFBA no contexto de um Brasil que busca reconstruir sua política científica e educacional.

O que separa os dois, portanto, não é a ideologia, mas a narrativa do poder. Salles encarna o símbolo da resistência, o guardião do legado. Penildon representa a renovação, a continuidade com mudança. Em política — e a universidade é também um campo político — essa diferença basta para acender disputas acirradas.

Há ainda o elemento humano, inevitável em qualquer ruptura: a busca pelo protagonismo. O posto de reitor é o ápice da carreira acadêmica, e ambos têm credenciais para ocupá-lo. Mas o que para alguns é continuidade, para outros soa como repetição. O eleitorado universitário — professores, técnicos e estudantes — verá, nos próximos meses, dois rostos conhecidos apresentando caminhos que se cruzam e se afastam ao mesmo tempo.

A UFBA vive, assim, um momento de reflexão sobre o próprio destino. A eleição de 2026 não será apenas uma escolha de nomes, mas de projetos. Será preciso decidir entre a universidade que resiste e a universidade que dialoga — entre o passado de firmeza e o futuro de abertura. Talvez o desafio maior seja compreender que nenhuma das duas visões está errada. Elas expressam, na verdade, a tensão vital que sustenta qualquer instituição viva: a necessidade de preservar sua identidade sem perder a capacidade de se reinventar.

A disputa entre João Carlos Salles e Penildon Silva Filho é, em essência, o retrato de uma universidade madura, onde o debate se faz entre iguais, e não entre opostos inconciliáveis. O que está em jogo é a alma da UFBA — seu modo de pensar, ensinar e existir. E isso, convenhamos, é o que faz da política universitária um espelho das grandes disputas do próprio país.

ARTIGO – A UFBA e a Ruptura dos Antigos Companheiros

 

 

(Padre Carlos)

Há momentos na vida institucional em que as alianças do passado se desmancham no ar, como se o tempo revelasse que afinidades antigas eram, na verdade, pontes provisórias. É o que ocorre agora na Universidade Federal da Bahia (UFBA), palco de uma disputa que ultrapassa a simples sucessão administrativa: a pré-candidatura de João Carlos Salles e Penildon Silva Filho à reitoria de 2026 marca um divisor de águas no pensamento e no destino político da universidade.

Durante quase uma década, Salles e Penildon caminharam lado a lado. O primeiro, filósofo e ex-reitor entre 2014 e 2022, representava a sobriedade acadêmica e a defesa intransigente da autonomia universitária. O segundo, professor e atual vice-reitor, era um de seus mais próximos colaboradores — ocupou o cargo de pró-reitor de graduação e tornou-se, depois, o braço direito do reitor Paulo Miguez. Juntos, construíram um projeto de universidade plural, democrática e humanista.

Mas o tempo político das instituições é implacável. As estruturas que um dia se complementaram hoje se enfrentam em campos opostos. De um lado, João Carlos Salles, que tenta retornar ao comando com o slogan “Somos UFBA”, evocando a resistência à ingerência externa e o combate ao obscurantismo. De outro, Penildon Silva Filho, que apresenta uma proposta de “diálogo, ciência e projeto de Nação”, prometendo abrir a universidade a novos debates e vozes. Ambos invocam os mesmos princípios — autonomia, democracia, inclusão — mas a leitura desses conceitos revela sutis e profundas divergências.

Salles, com seu tom filosófico, quer reafirmar a universidade como bastião da liberdade intelectual, um espaço que se recusa a dobrar-se às “falsas promessas de progresso”. É uma candidatura que apela à memória — à UFBA que resistiu ao projeto Future-se e às tentativas de intervenção federal. Já Penildon, mais pragmático e afeito à linguagem da gestão moderna, fala em construir “um projeto coletivo de Nação”, inserindo a UFBA no contexto de um Brasil que busca reconstruir sua política científica e educacional.

O que separa os dois, portanto, não é a ideologia, mas a narrativa do poder. Salles encarna o símbolo da resistência, o guardião do legado. Penildon representa a renovação, a continuidade com mudança. Em política — e a universidade é também um campo político — essa diferença basta para acender disputas acirradas.

Há ainda o elemento humano, inevitável em qualquer ruptura: a busca pelo protagonismo. O posto de reitor é o ápice da carreira acadêmica, e ambos têm credenciais para ocupá-lo. Mas o que para alguns é continuidade, para outros soa como repetição. O eleitorado universitário — professores, técnicos e estudantes — verá, nos próximos meses, dois rostos conhecidos apresentando caminhos que se cruzam e se afastam ao mesmo tempo.

A UFBA vive, assim, um momento de reflexão sobre o próprio destino. A eleição de 2026 não será apenas uma escolha de nomes, mas de projetos. Será preciso decidir entre a universidade que resiste e a universidade que dialoga — entre o passado de firmeza e o futuro de abertura. Talvez o desafio maior seja compreender que nenhuma das duas visões está errada. Elas expressam, na verdade, a tensão vital que sustenta qualquer instituição viva: a necessidade de preservar sua identidade sem perder a capacidade de se reinventar.

A disputa entre João Carlos Salles e Penildon Silva Filho é, em essência, o retrato de uma universidade madura, onde o debate se faz entre iguais, e não entre opostos inconciliáveis. O que está em jogo é a alma da UFBA — seu modo de pensar, ensinar e existir. E isso, convenhamos, é o que faz da política universitária um espelho das grandes disputas do próprio país.

Homenagem Póstuma a Militante Negra: Beta e os Guardiões da Dignidade em Vitória da Conquista

 

 

 

Quando a Terra Acolhe Quem Semeou Liberdade

Há silêncios que ecoam mais alto que qualquer grito. Nesta quarta-feira, 05 de novembro de 2025, Vitória da Conquista se despede de Elizabeth Ferreira LopesBeta Preta, como era carinhosamente conhecida — e o vazio deixado por sua partida não é ausência: é presença multiplicada em cada jovem negro que alcançou a universidade, em cada mão acolhida pela Pastoral dos Negros, em cada política pública de igualdade racial que ela ajudou a construir tijolo por tijolo, esperança por esperança.

Este não é apenas um obituário. É um testemunho de que existem vidas que se transformam em sementes, e Beta plantou jardins onde antes havia apenas deserto de oportunidades.

As Raízes que Nos Sustentam: Memórias de Luta e Resistência

Beta: A Arquiteta de Futuros Possíveis

Beta não foi apenas militante — ela foi arquiteta de destinos. Ao implementar o cursinho Dandara dos Palmares, compreendeu que a educação é o portal mais revolucionário que existe. Quantos sonhos nasceram naquelas salas de aula? Quantos médicos, professores, advogados e poetas hoje existem porque Beta acreditou que o conhecimento não poderia ser privilégio de poucos?

Como primeira coordenadora de Promoção da Igualdade Racial de Vitória da Conquista, ela transformou indignação em política pública, lágrimas em lei, dor histórica em ação concreta. Ao lado de vários companheiros de  luta, construiu pontes entre militância política, pastoral, sindicalismo e movimento negro, provando que todas as lutas por dignidade se entrelaçam.

Padre José Carlos: A Fé que Liberta

Na nossa Bahia ancestral, onde orixás e santos caminham lado a lado, figuras como o Padre José Carlos ensinaram que espiritualidade e justiça social são faces da mesma moeda sagrada. A Pastoral dos Negros, que Beta ajudou a fundar, carrega esse legado: a compreensão de que Deus habita mais fortemente nos corpos que sofrem opressão, e que fé sem ação é oração incompleta.

Padre Zé Carlos e Beta compreenderam que templo verdadeiro é aquele onde negros e negras não apenas rezam, mas se fortalecem, se organizam, se amam sem pedir permissão.

As Vozes que Vieram Antes

Em Vitória da Conquista e em toda Bahia, há uma genealogia de coragem que não cabe nos livros oficiais. São os quilombolas que recusaram correntes, as mães de santo que preservaram memórias africanas quando a lei criminalizava terreiros, os trabalhadores negros que fundaram sindicatos quando não tinham nem direito a salário justo.

Beta não surgiu do nada — ela é continuação de uma ancestralidade guerreira.
E agora se junta a essa constelação de estrelas que iluminam nossa luta.

O Chamado que Ecoa para Nós

A morte de Beta não pode ser apenas luto. Deve ser compromisso renovado.

A você, que lê estas palavras: o que você fará com a liberdade que militantes como Beta conquistaram?
Os espaços que ela abriu nas universidades ainda precisam ser ocupados. As políticas que ela implementou ainda precisam ser defendidas, ampliadas, protegidas dos retrocessos que sempre nos espreitam.

Honrar Beta não é apenas chorar sua partida — é continuar sua caminhada.

Apoie cursinhos populares. Defenda cotas raciais. Fortaleça organizações negras. Ensine às crianças que existiram e existem heróis negros cujos nomes merecem ser pronunciados com reverência.
Não permita que o racismo estrutural, essa violência cotidiana e silenciosa, siga naturalizando desigualdades.

Beta viveu 60, 70, 80 anos — não importa.
Importa que cada dia foi dedicado a tornar o mundo menos cruel para quem nasce com pele preta neste Brasil que ainda carrega chagas da escravidão.

Despedida Temporária

Hoje, na Câmara de Vereadores, o corpo de Beta será velado.
Mas saibam: quem semeia justiça não morre, germina.

Cada jovem negro que hoje estuda medicina, direito, engenharia carrega Beta no diploma.
Cada política de igualdade racial carrega Beta na assinatura invisível.

Aos familiares, especialmente a Eduardo e Eduardinho nosso abraço apertado — aquele que dói de tanto amor e saudade.
O objetivo do Blog Política e Resenha é registrar essa memória, não podemos deixar que esses nomes se apaguem.

Beta, presente! Hoje e sempre.

E a você, leitor, o convite: não deixe que essa história seja apenas mais uma notícia triste que passa.
Faça dela combustível. Transforme comoção em movimento.
Porque o maior desrespeito que podemos fazer à memória de quem lutou tanto é continuar inertes, conformados, silenciosos.

A luta continua. E ela continua através de nós.

Com amor, luto e rebeldia,
Blog Política e Resenha

“Não há revolução sem amor, não há amor sem luta pela dignidade de cada vida negra.” — Reflexão inspirada em nossos ancestrais e ancestrais vivos, como Beta, que nos ensinam diariamente.

Homenagem Póstuma a Militante Negra: Beta e os Guardiões da Dignidade em Vitória da Conquista

 

 

 

Quando a Terra Acolhe Quem Semeou Liberdade

Há silêncios que ecoam mais alto que qualquer grito. Nesta quarta-feira, 05 de novembro de 2025, Vitória da Conquista se despede de Elizabeth Ferreira LopesBeta Preta, como era carinhosamente conhecida — e o vazio deixado por sua partida não é ausência: é presença multiplicada em cada jovem negro que alcançou a universidade, em cada mão acolhida pela Pastoral dos Negros, em cada política pública de igualdade racial que ela ajudou a construir tijolo por tijolo, esperança por esperança.

Este não é apenas um obituário. É um testemunho de que existem vidas que se transformam em sementes, e Beta plantou jardins onde antes havia apenas deserto de oportunidades.

As Raízes que Nos Sustentam: Memórias de Luta e Resistência

Beta: A Arquiteta de Futuros Possíveis

Beta não foi apenas militante — ela foi arquiteta de destinos. Ao implementar o cursinho Dandara dos Palmares, compreendeu que a educação é o portal mais revolucionário que existe. Quantos sonhos nasceram naquelas salas de aula? Quantos médicos, professores, advogados e poetas hoje existem porque Beta acreditou que o conhecimento não poderia ser privilégio de poucos?

Como primeira coordenadora de Promoção da Igualdade Racial de Vitória da Conquista, ela transformou indignação em política pública, lágrimas em lei, dor histórica em ação concreta. Ao lado de vários companheiros de  luta, construiu pontes entre militância política, pastoral, sindicalismo e movimento negro, provando que todas as lutas por dignidade se entrelaçam.

Padre José Carlos: A Fé que Liberta

Na nossa Bahia ancestral, onde orixás e santos caminham lado a lado, figuras como o Padre José Carlos ensinaram que espiritualidade e justiça social são faces da mesma moeda sagrada. A Pastoral dos Negros, que Beta ajudou a fundar, carrega esse legado: a compreensão de que Deus habita mais fortemente nos corpos que sofrem opressão, e que fé sem ação é oração incompleta.

Padre Zé Carlos e Beta compreenderam que templo verdadeiro é aquele onde negros e negras não apenas rezam, mas se fortalecem, se organizam, se amam sem pedir permissão.

As Vozes que Vieram Antes

Em Vitória da Conquista e em toda Bahia, há uma genealogia de coragem que não cabe nos livros oficiais. São os quilombolas que recusaram correntes, as mães de santo que preservaram memórias africanas quando a lei criminalizava terreiros, os trabalhadores negros que fundaram sindicatos quando não tinham nem direito a salário justo.

Beta não surgiu do nada — ela é continuação de uma ancestralidade guerreira.
E agora se junta a essa constelação de estrelas que iluminam nossa luta.

O Chamado que Ecoa para Nós

A morte de Beta não pode ser apenas luto. Deve ser compromisso renovado.

A você, que lê estas palavras: o que você fará com a liberdade que militantes como Beta conquistaram?
Os espaços que ela abriu nas universidades ainda precisam ser ocupados. As políticas que ela implementou ainda precisam ser defendidas, ampliadas, protegidas dos retrocessos que sempre nos espreitam.

Honrar Beta não é apenas chorar sua partida — é continuar sua caminhada.

Apoie cursinhos populares. Defenda cotas raciais. Fortaleça organizações negras. Ensine às crianças que existiram e existem heróis negros cujos nomes merecem ser pronunciados com reverência.
Não permita que o racismo estrutural, essa violência cotidiana e silenciosa, siga naturalizando desigualdades.

Beta viveu 60, 70, 80 anos — não importa.
Importa que cada dia foi dedicado a tornar o mundo menos cruel para quem nasce com pele preta neste Brasil que ainda carrega chagas da escravidão.

Despedida Temporária

Hoje, na Câmara de Vereadores, o corpo de Beta será velado.
Mas saibam: quem semeia justiça não morre, germina.

Cada jovem negro que hoje estuda medicina, direito, engenharia carrega Beta no diploma.
Cada política de igualdade racial carrega Beta na assinatura invisível.

Aos familiares, especialmente a Eduardo e Eduardinho nosso abraço apertado — aquele que dói de tanto amor e saudade.
O objetivo do Blog Política e Resenha é registrar essa memória, não podemos deixar que esses nomes se apaguem.

Beta, presente! Hoje e sempre.

E a você, leitor, o convite: não deixe que essa história seja apenas mais uma notícia triste que passa.
Faça dela combustível. Transforme comoção em movimento.
Porque o maior desrespeito que podemos fazer à memória de quem lutou tanto é continuar inertes, conformados, silenciosos.

A luta continua. E ela continua através de nós.

Com amor, luto e rebeldia,
Blog Política e Resenha

“Não há revolução sem amor, não há amor sem luta pela dignidade de cada vida negra.” — Reflexão inspirada em nossos ancestrais e ancestrais vivos, como Beta, que nos ensinam diariamente.

Leia de Quinho: O Rosto da Maturidade Política em Vitória da Conquista

 

 

 

Por Padre Carlos

Vereadora de oposição surpreende ao colocar os interesses da população acima de disputas partidárias

Em tempos de polarização extremada e politicagem rasteira, surge em Vitória da Conquista um exemplo que deveria ser regra, mas infelizmente ainda é exceção: a vereadora Leia de Quinho tem demonstrado que é possível fazer oposição responsável sem abrir mão do compromisso genuíno com a população.

A postura da parlamentar diante do projeto de crédito de R$ 400 milhões que tramita na Câmara Municipal revela uma maturidade política rara nos dias atuais. Enquanto muitos se escondem atrás de posições partidárias inflexíveis, Leia de Quinho ousa dizer o óbvio que poucos têm coragem de admitir: quando um projeto é bom para a cidade, merece apoio, independentemente de quem o propõe.

O Gesto Republicano que Faltava

Ao visitar os bairros Senhorinha Cairo e Convema 2, a vereadora não apenas constatou o óbvio – a precariedade da infraestrutura –, mas assumiu um compromisso público que define o verdadeiro espírito republicano: apoiar projetos que beneficiem a população, mesmo vindo do governo que ela fiscaliza e critica quando necessário.

As imagens são chocantes e conhecidas por quem vive essas realidades: ruas alagadas na Rua das Limeiras, valetas profundas na Rua 4 do Convema 2, lama e poeira que dificultam o acesso das pessoas aos serviços básicos. Problemas que não escolhem lado A ou lado B, esquerda ou direita. Problemas que exigem soluções, não discursos vazios.

Independência Que Inspira

O que mais impressiona na postura de Leia de Quinho é a liberdade política com que conduz seu mandato. Declarar publicamente que “mesmo sendo vereadora de oposição, tenho liberdade política para votar com consciência” não é apenas uma frase de efeito – é um manifesto de independência em um cenário onde muitos parlamentares se comportam como meros carimbos de lideranças partidárias.

Essa independência não significa ausência de posicionamento ideológico ou falta de coerência. Pelo contrário. Significa compreender que o papel de vereador transcende as pequenas batalhas do dia a dia político e alcança algo maior: a transformação concreta da vida das pessoas.

A Coragem de Ficar do Lado do Povo

Em um ambiente político muitas vezes contaminado pelo “oposicionismo de torcida organizada” – onde se torce contra tudo o que vem do adversário –, Leia de Quinho demonstra que existe outra forma de fazer política. Uma forma que não confunde fiscalização rigorosa com obstrução sistemática, que não troca o interesse público por pequenas vinganças partidárias.

Ao afirmar que apoiará o projeto mas exercerá fiscalização sobre sua execução, a vereadora entrega à população conquistense um roteiro de como deve ser o trabalho parlamentar: aprovar o que é bom, rejeitar o que é ruim, e fiscalizar tudo com olhos atentos.

O Exemplo Que Conquista Precisa

Vitória da Conquista, como tantas cidades brasileiras, sofre com a falta de infraestrutura básica. Os R$ 400 milhões em discussão representam uma oportunidade concreta de mudança. Mas recursos só se transformam em melhorias quando há vontade política genuína e fiscalização efetiva.

É justamente essa combinação que Leia de Quinho oferece: o apoio necessário para que projetos importantes avancem e a vigilância indispensável para que esses recursos cheguem onde devem chegar – nas ruas, nas escolas, nos postos de saúde, na vida real das pessoas.

Democracia em Ação

O gesto da vereadora não é apenas republicano; é profundamente democrático. Democracia não é apenas votar de quatro em quatro anos. Democracia é ter representantes que colocam os interesses da coletividade acima de interesses pessoais ou partidários. É ter parlamentares que não têm medo de contrariar cartilhas prontas quando a razão e o bem comum assim exigem.

Leia de Quinho está mostrando aos conquistenses que política pode – e deve – ser feita de outra forma. Uma forma que prioriza resultados sobre retóricas, soluções sobre slogans, pessoas sobre partidos.

Se mais vereadores seguissem esse exemplo, Vitória da Conquista seria não apenas uma cidade melhor, mas um farol de esperança de que a política brasileira pode, sim, se renovar. E que essa renovação começa não com grandes revoluções, mas com gestos simples de coragem, honestidade e compromisso com a verdade.

As ruas esburacadas do Senhorinha Cairo e do Convema 2 aguardam. E têm em Leia de Quinho não apenas uma voz que denuncia, mas uma representante que trabalha, fiscaliza e, quando necessário, tem a grandeza de apoiar. Isso é fazer política à altura do que o povo merece.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor.

Leia de Quinho: O Rosto da Maturidade Política em Vitória da Conquista

 

 

 

Por Padre Carlos

Vereadora de oposição surpreende ao colocar os interesses da população acima de disputas partidárias

Em tempos de polarização extremada e politicagem rasteira, surge em Vitória da Conquista um exemplo que deveria ser regra, mas infelizmente ainda é exceção: a vereadora Leia de Quinho tem demonstrado que é possível fazer oposição responsável sem abrir mão do compromisso genuíno com a população.

A postura da parlamentar diante do projeto de crédito de R$ 400 milhões que tramita na Câmara Municipal revela uma maturidade política rara nos dias atuais. Enquanto muitos se escondem atrás de posições partidárias inflexíveis, Leia de Quinho ousa dizer o óbvio que poucos têm coragem de admitir: quando um projeto é bom para a cidade, merece apoio, independentemente de quem o propõe.

O Gesto Republicano que Faltava

Ao visitar os bairros Senhorinha Cairo e Convema 2, a vereadora não apenas constatou o óbvio – a precariedade da infraestrutura –, mas assumiu um compromisso público que define o verdadeiro espírito republicano: apoiar projetos que beneficiem a população, mesmo vindo do governo que ela fiscaliza e critica quando necessário.

As imagens são chocantes e conhecidas por quem vive essas realidades: ruas alagadas na Rua das Limeiras, valetas profundas na Rua 4 do Convema 2, lama e poeira que dificultam o acesso das pessoas aos serviços básicos. Problemas que não escolhem lado A ou lado B, esquerda ou direita. Problemas que exigem soluções, não discursos vazios.

Independência Que Inspira

O que mais impressiona na postura de Leia de Quinho é a liberdade política com que conduz seu mandato. Declarar publicamente que “mesmo sendo vereadora de oposição, tenho liberdade política para votar com consciência” não é apenas uma frase de efeito – é um manifesto de independência em um cenário onde muitos parlamentares se comportam como meros carimbos de lideranças partidárias.

Essa independência não significa ausência de posicionamento ideológico ou falta de coerência. Pelo contrário. Significa compreender que o papel de vereador transcende as pequenas batalhas do dia a dia político e alcança algo maior: a transformação concreta da vida das pessoas.

A Coragem de Ficar do Lado do Povo

Em um ambiente político muitas vezes contaminado pelo “oposicionismo de torcida organizada” – onde se torce contra tudo o que vem do adversário –, Leia de Quinho demonstra que existe outra forma de fazer política. Uma forma que não confunde fiscalização rigorosa com obstrução sistemática, que não troca o interesse público por pequenas vinganças partidárias.

Ao afirmar que apoiará o projeto mas exercerá fiscalização sobre sua execução, a vereadora entrega à população conquistense um roteiro de como deve ser o trabalho parlamentar: aprovar o que é bom, rejeitar o que é ruim, e fiscalizar tudo com olhos atentos.

O Exemplo Que Conquista Precisa

Vitória da Conquista, como tantas cidades brasileiras, sofre com a falta de infraestrutura básica. Os R$ 400 milhões em discussão representam uma oportunidade concreta de mudança. Mas recursos só se transformam em melhorias quando há vontade política genuína e fiscalização efetiva.

É justamente essa combinação que Leia de Quinho oferece: o apoio necessário para que projetos importantes avancem e a vigilância indispensável para que esses recursos cheguem onde devem chegar – nas ruas, nas escolas, nos postos de saúde, na vida real das pessoas.

Democracia em Ação

O gesto da vereadora não é apenas republicano; é profundamente democrático. Democracia não é apenas votar de quatro em quatro anos. Democracia é ter representantes que colocam os interesses da coletividade acima de interesses pessoais ou partidários. É ter parlamentares que não têm medo de contrariar cartilhas prontas quando a razão e o bem comum assim exigem.

Leia de Quinho está mostrando aos conquistenses que política pode – e deve – ser feita de outra forma. Uma forma que prioriza resultados sobre retóricas, soluções sobre slogans, pessoas sobre partidos.

Se mais vereadores seguissem esse exemplo, Vitória da Conquista seria não apenas uma cidade melhor, mas um farol de esperança de que a política brasileira pode, sim, se renovar. E que essa renovação começa não com grandes revoluções, mas com gestos simples de coragem, honestidade e compromisso com a verdade.

As ruas esburacadas do Senhorinha Cairo e do Convema 2 aguardam. E têm em Leia de Quinho não apenas uma voz que denuncia, mas uma representante que trabalha, fiscaliza e, quando necessário, tem a grandeza de apoiar. Isso é fazer política à altura do que o povo merece.

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor.

Preservar o Passado para Construir o Futuro: O Valor dos Casarões Históricos de Conquista

 

 

 

Há algo profundamente revelador na forma como uma sociedade trata seu patrimônio histórico. Não se trata apenas de preservar tijolos e argamassa, mas de decidir que tipo de relação queremos estabelecer com nossa própria história e, consequentemente, com nosso futuro.

Vitória da Conquista vive um momento crucial nesse sentido. A recente decisão do Conselho Municipal de Cultura de tombar cinco imóveis históricos, incluindo a Prefeitura Municipal e o antigo prédio da Câmara de Vereadores, representa mais do que uma vitória burocrática – é um gesto de maturidade cívica e reconhecimento de que somos, fundamentalmente, herdeiros de uma trajetória coletiva.

Quando caminhamos pela região central da cidade, da Praça Sá Barreto ao Monumento ao Índio, passamos por verdadeiras testemunhas silenciosas de 185 anos de história. Cada casarão, cada fachada preservada conta uma narrativa que transcende a biografia individual de seus antigos moradores. São capítulos de uma história maior: a nossa.

O historiador Fábio Sena tocou em um ponto essencial ao afirmar que preservar é evitar que vivamos em uma cidade que nos seja totalmente estranha. Vivemos tempos de transformações velozes, onde o novo se sobrepõe ao antigo com uma velocidade estonteante. Nesse contexto, os casarões históricos funcionam como âncoras de identidade, lembretes tangíveis de que fazemos parte de algo que nos precede e que, espera-se, nos sucederá.


O Desafio que Precisa Ser Enfrentado

Porém, é preciso ser franco: apesar dos esforços louváveis da Secretaria de Cultura e do Conselho Municipal de Cultura de nossa cidade, não podemos fechar os olhos para uma realidade preocupante. O poder econômico e a falta de compromisso de alguns empresários com o patrimônio público têm levado casarões históricos a se transformarem em estacionamentos em Vitória da Conquista.

Sim, estacionamentos. Edificações que atravessaram mais de um século, que abrigaram famílias, que testemunharam momentos decisivos da história local, reduzidas a vagas de automóveis. É um sintoma alarmante de uma visão estreita que enxerga apenas o lucro imediato, ignorando o valor inestimável – e sim, também econômico a longo prazo – do patrimônio histórico.

Ver o esforço de alguns abnegados representantes públicos em defesa destes casarões é, sem dúvida, gratificante. Reconhecemos e celebramos cada vitória, cada tombamento aprovado, cada imóvel salvo da demolição. Mas é preciso dizer com todas as letras: queremos mais. Precisamos de mais.


A Necessidade de Ação Mais Rigorosa

O que nossa cidade necessita urgentemente é de um trabalho mais rigoroso, acompanhado de projetos consistentes e leis que possam efetivamente impedir a demolição dessas propriedades. Não basta a boa vontade de alguns; é preciso criar mecanismos legais robustos que protejam nosso patrimônio da especulação imobiliária desenfreada.

Outras cidades brasileiras já demonstraram que é possível conciliar desenvolvimento econômico com preservação histórica. Basta vontade política e, principalmente, coragem para enfrentar interesses econômicos que muitas vezes se sobrepõem ao interesse coletivo. O patrimônio histórico não pertence a este ou aquele proprietário individual – pertence à comunidade, às gerações passadas que o construíram e às gerações futuras que têm o direito de conhecê-lo.

É fundamental que o município estabeleça não apenas o tombamento, mas também incentivos para a preservação e penalidades severas para a demolição irregular. Que haja fiscalização efetiva, recursos para manutenção, e um plano diretor que realmente priorize a preservação do centro histórico. Que os proprietários de imóveis históricos recebam apoio técnico e, quando necessário, financeiro para a conservação adequada dessas edificações.


Memória Não Se Negocia

A Casa Memorial Governador Régis Pacheco, o Museu Regional, a Casa de Dona Zaza – esses espaços não são apenas monumentos a um passado distante. São centros vivos de cultura, educação e identidade. Quando preservamos um casarão, não estamos apenas mantendo uma fachada bonita; estamos garantindo que as técnicas construtivas, as preocupações urbanas, a força política e a organização comunitária de nossos antepassados continuem sendo referências tangíveis para compreendermos quem somos.

Pertencer a um lugar não é apenas residir nele; é reconhecer-se em suas ruas, suas construções, suas histórias. Quando permitimos que um casarão histórico seja demolido para dar lugar a um estacionamento, não perdemos apenas uma edificação – perdemos um pedaço da nossa identidade coletiva, um fragmento do tecido social que nos une como comunidade.


Um Chamado à Ação

A preservação do patrimônio histórico é responsabilidade de todos, mas precisa começar com decisões firmes do poder público. Precisamos de coragem política para dizer não aos interesses privados quando estes ameaçam o bem comum. Precisamos de empresários que compreendam que uma cidade com identidade e história preservadas é mais atrativa, mais turística, mais valiosa economicamente a longo prazo.

Precisamos também de uma sociedade civil mobilizada, que cobre, que fiscalize, que denuncie quando um patrimônio estiver em risco. Que as associações de bairro, os movimentos culturais, as universidades e as escolas se unam nessa causa. A memória só se mantém viva quando é defendida coletivamente.

É preciso, ainda, educação patrimonial consistente. Que as escolas incluam a história local em seus currículos, que haja visitações guiadas, que os próprios moradores sejam convidados a conhecer e valorizar esse patrimônio. Só se defende aquilo que se conhece e valoriza.


O Futuro que Escolhemos

Vitória da Conquista está em uma encruzilhada. Podemos seguir o caminho fácil, permitindo que o interesse econômico imediato destrua sistematicamente nosso patrimônio histórico, até que nossa cidade se transforme em mais uma urbe sem identidade, sem memória, sem alma. Ou podemos fazer a escolha difícil, mas necessária: estabelecer regras claras, fiscalização efetiva e punições severas para quem desrespeitar nosso patrimônio.

Ao preservarmos nossos casarões, fazemos mais do que uma concessão ao passado – fazemos um investimento no futuro. Garantimos que as próximas gerações de conquistenses possam olhar ao redor e reconhecer-se em sua cidade, sentir-se parte de uma história maior, compreender que são elos em uma corrente que liga passado e futuro.

Como bem sintetizou o Assessor Especial de Cultura, Alecxandre Magno, preservar esses casarões é preservar nossa cultura. Mas cultura não se preserva apenas com discursos bonitos – preserva-se com leis claras, fiscalização rigorosa e compromisso inabalável.

Que Vitória da Conquista tenha a coragem de proteger verdadeiramente seu patrimônio. Que os representantes públicos criem e façam cumprir leis de preservação mais rígidas. Que os empresários compreendam seu papel social. Que a sociedade se mobilize. Afinal, as cidades verdadeiramente grandes não são aquelas que apagam seu passado em nome do lucro imediato, mas aquelas que sabem integrá-lo criativamente ao presente, construindo assim um futuro mais rico, mais plural e profundamente enraizado em sua própria história.

O momento de agir é agora. Antes que mais um casarão vire estacionamento. Antes que nossa memória seja completamente pavimentada.

Preservar o Passado para Construir o Futuro: O Valor dos Casarões Históricos de Conquista

 

 

 

Há algo profundamente revelador na forma como uma sociedade trata seu patrimônio histórico. Não se trata apenas de preservar tijolos e argamassa, mas de decidir que tipo de relação queremos estabelecer com nossa própria história e, consequentemente, com nosso futuro.

Vitória da Conquista vive um momento crucial nesse sentido. A recente decisão do Conselho Municipal de Cultura de tombar cinco imóveis históricos, incluindo a Prefeitura Municipal e o antigo prédio da Câmara de Vereadores, representa mais do que uma vitória burocrática – é um gesto de maturidade cívica e reconhecimento de que somos, fundamentalmente, herdeiros de uma trajetória coletiva.

Quando caminhamos pela região central da cidade, da Praça Sá Barreto ao Monumento ao Índio, passamos por verdadeiras testemunhas silenciosas de 185 anos de história. Cada casarão, cada fachada preservada conta uma narrativa que transcende a biografia individual de seus antigos moradores. São capítulos de uma história maior: a nossa.

O historiador Fábio Sena tocou em um ponto essencial ao afirmar que preservar é evitar que vivamos em uma cidade que nos seja totalmente estranha. Vivemos tempos de transformações velozes, onde o novo se sobrepõe ao antigo com uma velocidade estonteante. Nesse contexto, os casarões históricos funcionam como âncoras de identidade, lembretes tangíveis de que fazemos parte de algo que nos precede e que, espera-se, nos sucederá.


O Desafio que Precisa Ser Enfrentado

Porém, é preciso ser franco: apesar dos esforços louváveis da Secretaria de Cultura e do Conselho Municipal de Cultura de nossa cidade, não podemos fechar os olhos para uma realidade preocupante. O poder econômico e a falta de compromisso de alguns empresários com o patrimônio público têm levado casarões históricos a se transformarem em estacionamentos em Vitória da Conquista.

Sim, estacionamentos. Edificações que atravessaram mais de um século, que abrigaram famílias, que testemunharam momentos decisivos da história local, reduzidas a vagas de automóveis. É um sintoma alarmante de uma visão estreita que enxerga apenas o lucro imediato, ignorando o valor inestimável – e sim, também econômico a longo prazo – do patrimônio histórico.

Ver o esforço de alguns abnegados representantes públicos em defesa destes casarões é, sem dúvida, gratificante. Reconhecemos e celebramos cada vitória, cada tombamento aprovado, cada imóvel salvo da demolição. Mas é preciso dizer com todas as letras: queremos mais. Precisamos de mais.


A Necessidade de Ação Mais Rigorosa

O que nossa cidade necessita urgentemente é de um trabalho mais rigoroso, acompanhado de projetos consistentes e leis que possam efetivamente impedir a demolição dessas propriedades. Não basta a boa vontade de alguns; é preciso criar mecanismos legais robustos que protejam nosso patrimônio da especulação imobiliária desenfreada.

Outras cidades brasileiras já demonstraram que é possível conciliar desenvolvimento econômico com preservação histórica. Basta vontade política e, principalmente, coragem para enfrentar interesses econômicos que muitas vezes se sobrepõem ao interesse coletivo. O patrimônio histórico não pertence a este ou aquele proprietário individual – pertence à comunidade, às gerações passadas que o construíram e às gerações futuras que têm o direito de conhecê-lo.

É fundamental que o município estabeleça não apenas o tombamento, mas também incentivos para a preservação e penalidades severas para a demolição irregular. Que haja fiscalização efetiva, recursos para manutenção, e um plano diretor que realmente priorize a preservação do centro histórico. Que os proprietários de imóveis históricos recebam apoio técnico e, quando necessário, financeiro para a conservação adequada dessas edificações.


Memória Não Se Negocia

A Casa Memorial Governador Régis Pacheco, o Museu Regional, a Casa de Dona Zaza – esses espaços não são apenas monumentos a um passado distante. São centros vivos de cultura, educação e identidade. Quando preservamos um casarão, não estamos apenas mantendo uma fachada bonita; estamos garantindo que as técnicas construtivas, as preocupações urbanas, a força política e a organização comunitária de nossos antepassados continuem sendo referências tangíveis para compreendermos quem somos.

Pertencer a um lugar não é apenas residir nele; é reconhecer-se em suas ruas, suas construções, suas histórias. Quando permitimos que um casarão histórico seja demolido para dar lugar a um estacionamento, não perdemos apenas uma edificação – perdemos um pedaço da nossa identidade coletiva, um fragmento do tecido social que nos une como comunidade.


Um Chamado à Ação

A preservação do patrimônio histórico é responsabilidade de todos, mas precisa começar com decisões firmes do poder público. Precisamos de coragem política para dizer não aos interesses privados quando estes ameaçam o bem comum. Precisamos de empresários que compreendam que uma cidade com identidade e história preservadas é mais atrativa, mais turística, mais valiosa economicamente a longo prazo.

Precisamos também de uma sociedade civil mobilizada, que cobre, que fiscalize, que denuncie quando um patrimônio estiver em risco. Que as associações de bairro, os movimentos culturais, as universidades e as escolas se unam nessa causa. A memória só se mantém viva quando é defendida coletivamente.

É preciso, ainda, educação patrimonial consistente. Que as escolas incluam a história local em seus currículos, que haja visitações guiadas, que os próprios moradores sejam convidados a conhecer e valorizar esse patrimônio. Só se defende aquilo que se conhece e valoriza.


O Futuro que Escolhemos

Vitória da Conquista está em uma encruzilhada. Podemos seguir o caminho fácil, permitindo que o interesse econômico imediato destrua sistematicamente nosso patrimônio histórico, até que nossa cidade se transforme em mais uma urbe sem identidade, sem memória, sem alma. Ou podemos fazer a escolha difícil, mas necessária: estabelecer regras claras, fiscalização efetiva e punições severas para quem desrespeitar nosso patrimônio.

Ao preservarmos nossos casarões, fazemos mais do que uma concessão ao passado – fazemos um investimento no futuro. Garantimos que as próximas gerações de conquistenses possam olhar ao redor e reconhecer-se em sua cidade, sentir-se parte de uma história maior, compreender que são elos em uma corrente que liga passado e futuro.

Como bem sintetizou o Assessor Especial de Cultura, Alecxandre Magno, preservar esses casarões é preservar nossa cultura. Mas cultura não se preserva apenas com discursos bonitos – preserva-se com leis claras, fiscalização rigorosa e compromisso inabalável.

Que Vitória da Conquista tenha a coragem de proteger verdadeiramente seu patrimônio. Que os representantes públicos criem e façam cumprir leis de preservação mais rígidas. Que os empresários compreendam seu papel social. Que a sociedade se mobilize. Afinal, as cidades verdadeiramente grandes não são aquelas que apagam seu passado em nome do lucro imediato, mas aquelas que sabem integrá-lo criativamente ao presente, construindo assim um futuro mais rico, mais plural e profundamente enraizado em sua própria história.

O momento de agir é agora. Antes que mais um casarão vire estacionamento. Antes que nossa memória seja completamente pavimentada.

A Lente que se Apagou Cedo Demais: 24 Anos Sem o Olhar de Jorge Melquisedeque

 

 

 

Padre Carlos

 

Por: Um Articulista da Cultura Conquistense Vitória da Conquista, 4 de novembro de 2025

O calendário, este implacável lembrete da passagem do tempo, marca hoje, 4 de novembro, vinte e quatro anos. Vinte e quatro anos não de um evento, mas de uma ausência. Em 2001, nesta mesma data, Vitória da Conquista perdia, de forma prematura e brutal, Jorge Luiz Melquisedeque da Silva. Mais do que um nome em uma placa de rua ou em uma sala de projeção, a cidade perdia um de seus olhos mais atentos, uma de suas vozes criativas mais inquietas.

Recordar Jorge Melquisedeque é, antes de tudo, um exercício de contextualização histórica. Falar de audiovisual em Vitória da Conquista hoje, com um curso universitário consolidado na UESB, com festivais e produções que circulam o país, parece um caminho natural. Mas não foi. Este caminho foi aberto à força, com ousadia e contra a maré, por pioneiros. Jorge era, talvez, o mais visionário deles.

Numa Conquista dos anos 80 e 90, que ainda buscava sua identidade cultural moderna, Jorge não era apenas um homem com uma câmera; ele era um homem com uma visão. Ele compreendeu, muito antes da popularização da mídia digital, que o “vídeo” não era apenas um registro, mas uma ferramenta de expressão, de denúncia e de construção de memória. Ele foi o nosso “videomaker” original, um ativista cultural que usava a lente para questionar a realidade que o cercava.

Seu legado mais palpável, e que reverbera diariamente pelos corredores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), é o Programa Janela Indiscreta Cine-Vídeo. Jorge foi um dos idealizadores centrais deste projeto. É fundamental que as novas gerações entendam: o “Janela” não nasceu como um mero cineclube acadêmico. Ele nasceu como um ato de resistência cultural. Foi a semente plantada por Jorge e seus contemporâneos, um espaço para formar público, para debater o cinema que não chegava às salas comerciais e, principalmente, para incentivar a produção local.

A existência da Sala de Projeção Jorge Melquisedeque na UESB é uma homenagem justa, mas é, acima de tudo, um símbolo de sua permanência. É o local físico onde sua missão continua. Cada estudante de cinema que ali senta, cada debate que ali ocorre, é um testamento de que a semente que ele plantou não apenas germinou, mas tornou-se uma árvore robusta. O próprio curso de Cinema e Audiovisual da UESB, hoje uma realidade sólida, assenta-se sobre os alicerces de militância cultural que Jorge ajudou a construir.

A perda de Jorge Melquisedeque, aos 48 anos, não foi apenas a interrupção de uma biografia. Foi uma ruptura. Perdemos o artista em plena ebulição. Perdemos as décadas de filmes que ele não fez, as aulas que ele não deu, as provocações que ele não articulou. O que Jorge faria com a tecnologia de hoje? Que tipo de obras ele estaria criando na era das redes sociais e do streaming? Esta é a lacuna que sua partida nos deixou – a dor do potencial não realizado.

Vitória da Conquista perdeu um cronista visual, um intelectual orgânico que pensava a cidade através das imagens. Ele nos ensinou a olhar para nós mesmos.

Hoje, 24 anos depois, a melhor forma de honrar Jorge Melquisedeque não é apenas com a lembrança saudosa, mas com a ação. Honramos Jorge quando ocupamos os espaços culturais, quando produzimos arte que desafia o status quo, quando defendemos a universidade pública como polo de pensamento crítico e, principalmente, quando assistimos a um filme no “Janela Indiscreta”.

Jorge se foi, mas seu olhar permanece. Ele está impresso na retina de cada novo cineasta conquistense, na tela da sala que leva seu nome e na própria vocação cultural da cidade que ele ajudou a moldar. A ausência de 24 anos dói, mas seu legado é, felizmente, indelével.

A Lente que se Apagou Cedo Demais: 24 Anos Sem o Olhar de Jorge Melquisedeque

 

 

 

Padre Carlos

 

Por: Um Articulista da Cultura Conquistense Vitória da Conquista, 4 de novembro de 2025

O calendário, este implacável lembrete da passagem do tempo, marca hoje, 4 de novembro, vinte e quatro anos. Vinte e quatro anos não de um evento, mas de uma ausência. Em 2001, nesta mesma data, Vitória da Conquista perdia, de forma prematura e brutal, Jorge Luiz Melquisedeque da Silva. Mais do que um nome em uma placa de rua ou em uma sala de projeção, a cidade perdia um de seus olhos mais atentos, uma de suas vozes criativas mais inquietas.

Recordar Jorge Melquisedeque é, antes de tudo, um exercício de contextualização histórica. Falar de audiovisual em Vitória da Conquista hoje, com um curso universitário consolidado na UESB, com festivais e produções que circulam o país, parece um caminho natural. Mas não foi. Este caminho foi aberto à força, com ousadia e contra a maré, por pioneiros. Jorge era, talvez, o mais visionário deles.

Numa Conquista dos anos 80 e 90, que ainda buscava sua identidade cultural moderna, Jorge não era apenas um homem com uma câmera; ele era um homem com uma visão. Ele compreendeu, muito antes da popularização da mídia digital, que o “vídeo” não era apenas um registro, mas uma ferramenta de expressão, de denúncia e de construção de memória. Ele foi o nosso “videomaker” original, um ativista cultural que usava a lente para questionar a realidade que o cercava.

Seu legado mais palpável, e que reverbera diariamente pelos corredores da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (UESB), é o Programa Janela Indiscreta Cine-Vídeo. Jorge foi um dos idealizadores centrais deste projeto. É fundamental que as novas gerações entendam: o “Janela” não nasceu como um mero cineclube acadêmico. Ele nasceu como um ato de resistência cultural. Foi a semente plantada por Jorge e seus contemporâneos, um espaço para formar público, para debater o cinema que não chegava às salas comerciais e, principalmente, para incentivar a produção local.

A existência da Sala de Projeção Jorge Melquisedeque na UESB é uma homenagem justa, mas é, acima de tudo, um símbolo de sua permanência. É o local físico onde sua missão continua. Cada estudante de cinema que ali senta, cada debate que ali ocorre, é um testamento de que a semente que ele plantou não apenas germinou, mas tornou-se uma árvore robusta. O próprio curso de Cinema e Audiovisual da UESB, hoje uma realidade sólida, assenta-se sobre os alicerces de militância cultural que Jorge ajudou a construir.

A perda de Jorge Melquisedeque, aos 48 anos, não foi apenas a interrupção de uma biografia. Foi uma ruptura. Perdemos o artista em plena ebulição. Perdemos as décadas de filmes que ele não fez, as aulas que ele não deu, as provocações que ele não articulou. O que Jorge faria com a tecnologia de hoje? Que tipo de obras ele estaria criando na era das redes sociais e do streaming? Esta é a lacuna que sua partida nos deixou – a dor do potencial não realizado.

Vitória da Conquista perdeu um cronista visual, um intelectual orgânico que pensava a cidade através das imagens. Ele nos ensinou a olhar para nós mesmos.

Hoje, 24 anos depois, a melhor forma de honrar Jorge Melquisedeque não é apenas com a lembrança saudosa, mas com a ação. Honramos Jorge quando ocupamos os espaços culturais, quando produzimos arte que desafia o status quo, quando defendemos a universidade pública como polo de pensamento crítico e, principalmente, quando assistimos a um filme no “Janela Indiscreta”.

Jorge se foi, mas seu olhar permanece. Ele está impresso na retina de cada novo cineasta conquistense, na tela da sala que leva seu nome e na própria vocação cultural da cidade que ele ajudou a moldar. A ausência de 24 anos dói, mas seu legado é, felizmente, indelével.

ARTIGO – Quando a Infância Perde o Sentido: O Caso dos Alunos que Tentaram Envenenar Professoras em Salvador

 

 

 

(Padre Carlos)

Há fatos que ultrapassam a fronteira do espanto e nos colocam diante de uma pergunta inadiável: o que está acontecendo com nossas crianças? A notícia de que alunos de apenas 12 anos, em Salvador, foram flagrados tentando envenenar duas professoras com balas misturadas a chumbinho, é mais do que um episódio isolado de indisciplina — é um grito de alerta sobre o colapso silencioso da formação moral, afetiva e familiar em nosso tempo.

Não se trata apenas de um ato inconsequente de adolescentes. Trata-se de uma tragédia simbólica: o gesto de destruir o outro como forma de escapar à responsabilidade pessoal. O veneno, neste caso, não está apenas nas balas contaminadas, mas no envenenamento moral de uma geração que cresce cercada por estímulos violentos, por modelos desumanizados e pela ausência de referenciais éticos sólidos.

A escola, que deveria ser o santuário da educação e da esperança, tem se transformado em palco de agressões, medo e desrespeito. O professor — outrora símbolo do saber e do respeito — hoje é visto por muitos como inimigo, obstáculo, ou até alvo de ódio gratuito. O caso do Colégio Estadual Edson de Souza Carneiro não é apenas uma manchete: é o reflexo de uma sociedade que perdeu o senso de limite e de reverência pela vida.

É urgente que pais, educadores, igrejas e o próprio Estado compreendam que não estamos lidando com um problema disciplinar, mas com um colapso cultural. Crianças de 12 anos não nascem com o instinto de matar — elas o aprendem. Aprendem pela negligência, pela banalização do mal nas redes sociais, pela ausência de diálogo em casa e pela desvalorização da figura do professor.

A Secretaria da Educação da Bahia agiu corretamente ao envolver equipes multidisciplinares e famílias. Mas a resposta não pode se encerrar em reuniões e notas oficiais. É preciso resgatar o valor da autoridade, o papel da família e a formação emocional desde cedo. Precisamos ensinar novamente que o erro não se corrige com ódio e que o medo da reprovação não justifica a violência.

Que este triste episódio sirva como espelho e advertência. Uma sociedade que não protege seus mestres e não educa seus filhos está condenada a viver de tragédias anunciadas. É tempo de reaprender o sentido do amor, do respeito e da responsabilidade — antes que o veneno moral contamine, de vez, o futuro do nosso país.

ARTIGO – Quando a Infância Perde o Sentido: O Caso dos Alunos que Tentaram Envenenar Professoras em Salvador

 

 

 

(Padre Carlos)

Há fatos que ultrapassam a fronteira do espanto e nos colocam diante de uma pergunta inadiável: o que está acontecendo com nossas crianças? A notícia de que alunos de apenas 12 anos, em Salvador, foram flagrados tentando envenenar duas professoras com balas misturadas a chumbinho, é mais do que um episódio isolado de indisciplina — é um grito de alerta sobre o colapso silencioso da formação moral, afetiva e familiar em nosso tempo.

Não se trata apenas de um ato inconsequente de adolescentes. Trata-se de uma tragédia simbólica: o gesto de destruir o outro como forma de escapar à responsabilidade pessoal. O veneno, neste caso, não está apenas nas balas contaminadas, mas no envenenamento moral de uma geração que cresce cercada por estímulos violentos, por modelos desumanizados e pela ausência de referenciais éticos sólidos.

A escola, que deveria ser o santuário da educação e da esperança, tem se transformado em palco de agressões, medo e desrespeito. O professor — outrora símbolo do saber e do respeito — hoje é visto por muitos como inimigo, obstáculo, ou até alvo de ódio gratuito. O caso do Colégio Estadual Edson de Souza Carneiro não é apenas uma manchete: é o reflexo de uma sociedade que perdeu o senso de limite e de reverência pela vida.

É urgente que pais, educadores, igrejas e o próprio Estado compreendam que não estamos lidando com um problema disciplinar, mas com um colapso cultural. Crianças de 12 anos não nascem com o instinto de matar — elas o aprendem. Aprendem pela negligência, pela banalização do mal nas redes sociais, pela ausência de diálogo em casa e pela desvalorização da figura do professor.

A Secretaria da Educação da Bahia agiu corretamente ao envolver equipes multidisciplinares e famílias. Mas a resposta não pode se encerrar em reuniões e notas oficiais. É preciso resgatar o valor da autoridade, o papel da família e a formação emocional desde cedo. Precisamos ensinar novamente que o erro não se corrige com ódio e que o medo da reprovação não justifica a violência.

Que este triste episódio sirva como espelho e advertência. Uma sociedade que não protege seus mestres e não educa seus filhos está condenada a viver de tragédias anunciadas. É tempo de reaprender o sentido do amor, do respeito e da responsabilidade — antes que o veneno moral contamine, de vez, o futuro do nosso país.