
(Padre Carlos)
É profundamente lamentável o que ocorreu com o míssil iraniano que atingiu um hospital. Como homem de fé e defensor da dignidade humana, não posso – nem devo – me calar diante de tal barbaridade. A vida é sagrada. Um hospital, símbolo de cuidado e acolhimento, jamais pode ser transformado em alvo militar. Independentemente da geopolítica envolvida, não há justificativa moral para esse tipo de ataque. Famílias foram destruídas, crianças morreram, e mais uma vez o sangue inocente escorre por entre os escombros da vaidade dos poderosos.
Mas, com a mesma firmeza com que condeno este ato, me pergunto: onde estava essa mesma comoção internacional quando Israel bombardeou hospitais e escolas em Gaza?
Quem não se lembra do hospital Al-Ahli, destruído sob a justificativa – repetida como mantra – de que ali haveria combatentes ou esconderijos de armas? E a escola da ONU bombardeada, onde dormiam crianças e civis desesperados? A resposta israelense foi sempre a mesma: “usavam escudos humanos”, “eram alvos legítimos”, “foi um erro técnico”. E a imprensa internacional, na sua maioria, acatou. Tratou o assunto com luvas de pelica. Em vez de manchetes indignadas, viu-se silêncio, tergiversação ou a tentativa de diluir a culpa com supostas dúvidas sobre a autoria.
Por que dois pesos e duas medidas? Um míssil iraniano é uma atrocidade. Um míssil israelense, uma “tragédia complexa”. Um ataque do Irã é “terrorismo”. Um bombardeio de Israel é “autodefesa”.
Há algo podre nessa narrativa. E precisamos ter coragem para dizer isso. Porque o sangue das crianças palestinas não é menos precioso do que o das israelenses. A dor de uma mãe em Teerã ou em Tel Aviv é tão real quanto a de uma mãe em Gaza. A morte de inocentes, em qualquer território, não pode ser relativizada nem por ideologia, nem por conveniência diplomática.
A memória ainda guarda, com indignação, as palavras de uma deputada israelense que afirmou, com frieza assombrosa, que “matar crianças palestinas é normal”. Como normalizar o assassinato de crianças? Como aceitar isso de forma silenciosa?
Minha crítica aqui é dupla: aos que lançam bombas sobre hospitais – sejam iranianos, israelenses ou quem quer que seja – e à hipocrisia da cobertura midiática que se cala seletivamente, que chora por uns e ignora os gritos de outros. A verdade deve ser íntegra, ainda que desconfortável. Porque só há paz onde há justiça. E justiça não é feita com mísseis, mas com humanidade.
A luta contra o terrorismo não pode ser feita com métodos terroristas. A segurança de um povo não pode se basear na destruição sistemática de outro. Não há caminho para a paz onde crianças são vistas como escudos e hospitais como bunkers.
Sejamos francos: o mundo precisa aprender a olhar com os mesmos olhos para todas as vítimas. Porque a humanidade não pode ter lado. Ou ela se levanta em defesa da vida, ou afunda de vez na lama da cumplicidade.











