
(Padre Carlos)
Em tempos em que o pragmatismo veste gravata, circula nos salões de Brasília e se acomoda nas planilhas dos ministérios, o gesto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de acionar o STF para defender o decreto que elevava o IOF soa como um sonoro “ainda sou de esquerda”. Um tapa simbólico — e necessário — nos rostos sonolentos de setores do PT que andam mais preocupados com a governabilidade de Excel do que com a justiça social que os fundou.
O Congresso Nacional — essa grande mesa de negócios com fachada democrática — decidiu derrubar o decreto que corrigia distorções no imposto sobre operações financeiras. Não para proteger o povo, mas para agradar as forças ocultas e os patrões da Faria Lima, esses mesmos que sonham com um Estado mínimo para os pobres e um Estado blindado para os seus dividendos.
Foi aí que Lula, no melhor estilo “quem tem história, não teme confronto”, chamou a Advocacia-Geral da União e mandou preparar a ação. Disse ao país, com a caneta na mão e a biografia nas costas, que ainda sabe de que lado da história está. A parte que impressiona — ou entristece — é que teve que lembrar isso ao próprio governo.
Sim, ao governo. Aquele que, em boa parte, se comporta como se estivesse em permanente busca de aprovação no LinkedIn da política. A ala do PT que teme o atrito com o centrão, os técnicos que tremem diante da palavra “mercado”, e os tais “progressistas” que, no fundo, só querem progressão na carreira — todos esses parecem ter esquecido que a função de um governo de esquerda é, antes de tudo, proteger os de baixo.
Lula não poderia se calar. Não depois de décadas sendo o operário que virou presidente. Não depois de ver os mesmos que o prenderam agora o pressionarem a governar como um gerente de interesses corporativos. Ele precisava falar. E falou. Com a força de quem tem legitimidade histórica para isso.
Hugo Motta, presidente da Câmara, fingiu-se de capitão zeloso, alertando que o navio estava indo ao encontro do iceberg. Bonito no discurso, traiçoeiro na prática. O que não disse é que foi ele quem virou o leme. E que, ao invés de evitar o desastre, foi o fiador da sabotagem.
Neste cenário, Lula não apenas acionou o Supremo. Ele acionou a memória do seu próprio partido. Relembrou aos pragmáticos que os governos passam, mas os princípios ficam — ou devem ficar. Que ser de esquerda não é apenas discursar sobre justiça tributária, mas enfrentá-la, mesmo que doa, mesmo que impopular. Porque popular mesmo é o cinismo. E o povo já está cansado de cínicos bem-intencionados.
O gesto de Lula, ainda que jurídico, é profundamente político. Ele não está apenas tentando reativar um decreto. Está tentando impedir que seu legado seja diluído pelo medo. Está lembrando ao Brasil — e ao PT — que ainda é possível ter governo e ter coragem ao mesmo tempo.
E se o Congresso escolheu o capital, Lula escolheu o povo. Ainda há tempo para que seu governo lembre para quem foi eleito. E que tipo de história quer escrever. Porque, no fim, quem se cala diante da injustiça, vira nota de rodapé. Lula ainda pode ser o parágrafo central.











