
(Padre Carlos)
Há decisões políticas que não nascem da leitura correta da realidade, mas da repetição teimosa de velhos vícios. A insistência do PT da Bahia em construir uma chapa “puro sangue” para a disputa majoritária revela mais que autoconfiança excessiva: expõe um projeto hegemônico que ignora aliados históricos, tensiona a esquerda e flerta perigosamente com o patrimonialismo político.
Quando um partido governa por muito tempo, corre o risco de confundir Estado com sigla, governo com propriedade e coalizão com subordinação. É exatamente essa percepção que hoje ronda o cenário baiano. O PSD, parceiro estratégico em vitórias recentes, demonstra desconforto. PSB e PCdoB, pilares da frente de esquerda que sustentou os governos petistas, sentem-se empurrados para a periferia das decisões. A Federação Partidária, que deveria ser instrumento de convivência programática e respeito mútuo, vai sendo tratada como detalhe burocrático — quando, na verdade, é um pacto político.
O discurso do “puro sangue” vende a ideia de identidade, mas pratica exclusão. Em vez de fortalecer o campo progressista, estreita-o. Em vez de ampliar pontes, ergue muros. Em vez de coalizão, imposição. E política, sobretudo em tempos de polarização e fadiga democrática, não se sustenta sem alianças reais, lealdade compartilhada e reconhecimento dos limites do próprio poder.
Há ainda um aspecto mais grave, pouco debatido, mas sentido nas ruas: o patrimonialismo que se infiltra nas engrenagens do poder. Quando a lógica do “é nosso” substitui a do “é público”, instituições perdem autonomia e credibilidade. A percepção de que a política domina a polícia, e não o contrário, corrói a confiança social e alimenta narrativas autoritárias. Segurança pública não pode ser extensão de projeto partidário; é política de Estado, com legalidade, transparência e controle democrático.
Se os petistas baianos esqueceram, convém lembrar um fato histórico que deveria servir de vacina. A pior derrota do PT em eleições presidenciais ocorreu exatamente quando o partido apostou numa chapa “puro sangue”. Em 1994, Lula e Aloizio Mercadante foram derrotados no primeiro turno por Fernando Henrique Cardoso, que venceu com 54,3% dos votos, enquanto o PT ficou com apenas 27%. Foi um choque. Desde então, o PT nacional compreendeu que alianças não eram concessão, mas condição de vitória e governabilidade. Abandonou o purismo e venceu. Repetidas vezes.
Por que, então, a Bahia caminharia na contramão dessa lição histórica? Por que reeditar um modelo que já se provou eleitoralmente frágil e politicamente míope? A política é feita de memória. Quem a perde, tropeça nos próprios erros.
A hegemonia, quando não dialoga, degenera. A liderança, quando não escuta, isola-se. E projetos de poder que se fecham em si mesmos acabam derrotados — nas urnas ou na história. A Bahia exige mais maturidade política, mais generosidade estratégica e menos soberba partidária.
Se o PT quer continuar liderando o campo progressista baiano, precisa voltar a fazer o que o tornou grande: construir alianças, respeitar parceiros, compartilhar poder e compreender que governar é somar, não subtrair. Caso contrário, a “chapa puro sangue” pode se transformar, mais uma vez, em puro erro.












